quinta-feira, 9 de abril de 2009
O Conceder Divino - Capítulo 2
Aqui estou eu, como prometido, para postar o capítulo dois do meu primeiro livro.
Bom, esse mês, apesar de ainda estar começando, já me rendeu muita coisa boa, e ainda tem muita coisa para acontecer.
No dia 4 eu estava em SP, assistindo ao Terceiro International Magic Festisval. Nossa, dizer que foi incrível é subestimar o evento. O show foi FANTÁSTICO!
Além disso esse mês também pintaram algumas apresentações bem interessantes para eu fazer mágica também. O que isso tem a ver com literatura? NADA, mas eu tinha que falar isso para alguém, hehe.
Mas tenho novidades literárias também. Esse mês termina o prazo para as inscrições de um concurso de contos de terror, que eu vou mandar um material meu para participar. Se tudo der certo, e meu conto agradar os julgadores, esse material será publicado no site de uma grande editora aqui do Brasil. Vai ser um passo e tanto para mim, hehe.
Agora chega de ladainha, vamos logo ao próximo capítulo:
Capítulo 2 – Como Reverter a Bênção/Maldição
Mal os aventureiros adormeceram e Azgher já tomava seu lugar ao céu, no infinito ciclo entre ele e Tenebra, e fora iluminando a cidade, que depois de uma noite de muita algazarra, acordou calma e muito quieta. Lyem fora o primeiro a acordar, e a primeira coisa que fez foi se certificar que sua máscara estava cobrindo seu rosto, e estava. Levantou-se calmamente, com os cabelos negros, lisos e compridos, levemente embaraçados, e foi tratar da higiene pessoal. Lavou o rosto e cuidou dos dentes numa velocidade incrível, ele odiava o fato de não estar usando sua triste face de madeira, mas ele tinha seus motivos para isso.
Lyem Aquai é um meio-elfo, ou seja, um dos pais humano e o outro elfo, e sua mãe, Sara Aquai, é humana, e, antes do herói nascer, ela era casada com um humano também, Ângelo Aquai. A decepção de Ângelo foi tão grande quando viu que a criança não era seu filho, que expulsou sua esposa de casa, junto com o recém-nascido. Para sobreviverem, Sara, que era jovem e muito bonita, foi trabalhar no bordel da cidade vizinha da qual moravam, mas como costureira, trabalho que se mostrou muito lucrativo, pois diversas vezes os vestidos “se rasgavam” no decote e na saia. Logo, Lyem crescera cercado de mulheres bonitas e fogosas, e ele aprendeu muito cedo a amá-las. Todas sempre foram muito gentis com o garoto, que em alguns lugares de Arton, podia ser maltratado, por não ser humano, mas não as colegas de trabalho de sua mãe, elas o adoravam, e ele a elas.
Quando atingiu a puberdade, a mulher mais linda dali o transformou em homem, e um dos melhores que ela já havia “visto”. Começou a trabalhar no bar do bordel, mas essa não era a vida que ele queria, apesar de estar sempre cercado de mulheres bonitas e festas todas as noites. Ele sonhava em viajar, conhecer outras mulheres, outras festas, outras cidades, e quem sabe um dia, se casar. Então, na noite em que Lyem completara dezenove anos, um jovem, de mais ou menos vinte e cinco verões entrara no bordel. Ele se chamava Saydiss Lisild, com longas vestes coloridas e um chapéu de três pontas, um florete pendurado no quadril do lado da perna esquerda, aos berros, pedindo a melhor bebida e a melhor mulher. O aventureiro tinha um brilho no olhar, que chamara a atenção do meio-elfo, e as histórias que Saydiss contava. De suas aventuras, batalhas contra exércitos de orcs e outras criaturas que pareciam horrorosas e muito más, e as lindas mulheres salvas por ele, fez Lyem Aquai decidir o que fazer da vida, iria se tornar um swashbuckler, o típico herói charmoso, galante, valente e corajoso, matando os monstros maus e salvando as princesas em apuros.
Na outra manhã, o meio-elfo já havia comprado um florete bem simples, com o dinheiro que ganhara no bar, e começou a treinar arduamente. E o jovem percebeu que tinha talento, em algumas semanas, um pequeno grupo de saqueadores kobolds atacou o vilarejo, e Lyem exterminou todos sem nem mesmo levar um arranhão. Todos ficaram muito agradecidos, e sua mãe, bem como as amigas dela, ficou muito orgulhosa, e depois de dois meses, ela o dera permissão para seguir viagem e fazer seu nome entre os grandes heróis de Arton. Sara já havia preparado roupas e mantimentos para o filho, e todas as mulheres do bordel choraram no dia em que ele partiu, pois perdiam um bom amigo e um ótimo amante.
Os primeiros meses de peregrinação foram exaustivos, ele não salvara nenhuma princesa nem matara nenhum monstro. Apenas andava, com as pernas já cansadas, e passava fome e frio a noite. Mas sua sorte mudara no dia em que avistou um pequeno templo no meio da floresta, perto da cidade de Malpetrim. Era uma construção de porte médio, com dois andares, as paredes todas muito brancas por fora, com pequenas janelas na parte de cima, uma porta grande na entrada, entre dois pilares que sustentavam uma sacada. Era um templo de Edela, a deusa menor do amor. Lyem foi rapidamente para o templo, pois sentia muita fome, já estava até com as feições mais magras, e também queria tomar banho.
Quando ele entrou no grande salão que dava para a porta de frente, já não sentia mais fome nem nenhuma espécie de medo ou aflição, e viu que por dentro, o templo era muito belo e aconchegante, com um grande lustre redondo no teto, com algumas velas já acesas apesar de ser dia ainda. Lyem viu estantes com livros e alguns altares ali em volta e uma grande escada no centro do salão, que levava para o segundo andar. Percebendo que havia chegado alguém em seu templo, uma clériga, muito bela e serena, desceu a escadaria para ir de encontro ao visitante. Lyem ficou encantado com a presença daquela jovem mulher, que lhe passava muita paz e tranqüilidade.
-Olá. Bom dia. Eu me chamo Isa, sou a clériga que cuida deste templo. - disse a mulher, olhando com um pequeno sorriso aconchegante em seu rosto. Ela tinha os cabelos curtos, loiros, na altura dos ombros, e muito bem cuidados e com um aroma doce que podia ser sentido à distancia. O jovem aventureiro fez uma reverência graciosa, segurando a mão esquerda da dama.
-É uma grande honra ser recebido por uma mulher tão bela e gentil. Edela deve estar olhando por mim neste momento. - respondeu beijando a costa da pequena mão, que parecia seda ao toque. - Eu me chamo Lyem Aquai, estou andando por toda Arton para socorrer os mais fracos e os que clamam minha ajuda. – completou, levantando o corpo e estufando o peito com orgulho.
Isa o levou para um aposento e foi preparar um banho para o jovem, sentindo-se fascinada por aquele charmoso rapaz, muito educado e galante. Após um banho quente e uma janta que Lyem nunca comera igual, o meio-elfo começou a conversar com a clériga sobre os mais diversos assuntos, e com todos os elogios e mesuras da parte do swashbuckler, sem querer Isa acabou se apaixonando pelo forasteiro. Mas ele era muito novo e queria vagar por toda Arton ainda. Porém, ela tinha um sentimento muito forte, talvez por causa de sua Deusa, mas isso já não importava, estava apaixonada e queria se casar, e seguir o noivo para onde ele fosse.
-Mas o templo não pode ficar aqui abandonado. - dizia o aventureiro meio apavorado com a idéia de se casar tão novo, mas era em vão. Nem o templo importava mais para a clériga, somente seu amado. O herói foi obrigado a fazer uma coisa que nunca se imaginou fazendo, ele teria que magoá-la. Quando chegou a hora do aventureiro partir, ele a chamou junto à porta, ela já estava animada, pensando que o amado tinha aceitado a idéia de se casar e levá-la com ele quando...
-Isa, eu te agradeço muito por ter cuidado de mim esses dias que passei aqui, mas isso não foi o suficiente para me fazer gostar de você, e a sua insistência em querer se casar comigo só me fez ODIÁ-LA! Humpf, onde já se viu? Eu, Lyem Aquai, casar-me! - mentiu o meio-elfo, com falso ódio no olhar e um tom ríspido na voz. Os lindos olhos azuis de Isa se encheram de água, a face se enrugou em menos de um segundo as lagrimas desabaram abundantes de seus olhos, aquela visão só deixou Aquai mais triste por dentro, mas ele precisava ir embora. A clériga correu para dentro do templo, e lá de fora foi possível ouvir o barulho de suas sandálias pisarem forte na escada. O swashbuckler tentou convencer a si mesmo enquanto ia embora, “Foi melhor assim” pensava ele, mas o remorso não sumia.
Lyem Aquai não tinha dado nem quatro passos fora do templo e ouvira uma batida de portas se abrindo com tanta força que colidiram nas paredes onde estavam fixadas. Ele olhou rapidamente para onde vinha o barulho. Eram as portas da sacada, e lá em cima estava Isa, segurando uma adaga na mão e com cara de raiva e olhos inchados pelo choro.
-Se for para passar a vida longe de você meu amor, prefiro a morte! - gritou Isa, afundando a adaga contra o coração, e apagou, caindo da sacada, ao lado de seu amado, que já estava quase dentro do templo, correndo para tentar impedi-la. Quando caiu já sem vida aos pés de Aquai, este se ajoelhou e soltou um grito tão alto que as janelas do templo tremeram. Lyem pensou em pegar a adaga e se matar ali mesmo, junto com a clériga, mas uma luz vermelho vinho brilhou forte dentro do templo, e o choroso aventureiro a ouviu claramente chamando-o, com uma voz feminina muito doce e suave, mas com um tom de repreensão. E o meio-elfo foi ao seu encontro.
Ao entrar no templo, ainda aos prantos, o swashbuckler se deparou com uma linda mulher de cabelos longos e vermelhos como sangue, usando um vestido de mesma cor, que cobria seus pés, balançando suavemente, como se uma brisa de verão passasse sobre ele. O rosto da mulher, que Lyem descobriu na mesma hora em que a vira que ela era Edela, a Deusa menor do amor, trazia uma expressão de choro, mas continuava sendo a mulher mais linda que Lyem já vira. Quando o meio-elfo se aproximou o suficiente, ela lhe dirigiu a palavra, com uma voz tão suave e aconchegante que deixou o herói meio sonolento.
-Jovem aventureiro, hoje uma mulher morrera por amor. Porém, esta fora uma morte desnecessária, pois você a magoou por motivos egoístas. Eu sei que a culpa não foi tua por ela ter se apaixonado por ti. Você estava apenas sendo educado e cortês, sendo você mesmo, mas ela era muito nova e, sendo minha devota, seus sentimentos dispertavam com mais facilidade e mais fervor. - disse a deusa, já com lagrimas escorrendo sua linda face, o que cortou mais ainda o coração do meio-elfo. - E eu não posso deixar isso passar em branco. - Edela agora erguera seu tom de voz, passando de calma e aconchegante para forte e assustadora. - Você será vítima da minha pior maldição – gritou a Deusa, segurando com uma mão a face do rapaz, seu vestido e seus cabelos agora ondeavam como se a brisa que os embalava tivesse se transformado em um furacão. - Toda mulher, independente de raça e idade, que ver sua face, se apaixonara perdidamente por ti, Lyem Aquai! - por entre os dedos da Deusa, Lyem percebeu que em seus olhos havia ódio e arrependimento, e nesse instante, o jovem swashbuckler sentiu uma pontada no coração, mas não era dor, era desespero.
Parecia que a deusa segurara o rosto de Aquai por horas, e quando finalmente o soltou, ele percebera que ela não estava mais lá, e a sensação de calma e conforto que o templo emitia também havia ido embora. Lyem Aquai não sabe por quanto tempo ficou ali no chão, agachado, chorando e pensando no que fazer da vida. Quando finalmente levantou, ele deu umas batidinhas na roupa para limpar a pouca sujeira de suas vestes, e foi comprar uma máscara.
E é por este motivo que Lyem não pode se dar ao luxo de ficar bêbado, de deixar seus reflexos ficarem imprecisos e lerdos, que sua percepção ficasse fraca, para que não corresse o risco de perder sua máscara no meio de muitas mulheres. Ter varias damas mortalmente apaixonadas correndo e se jogando aos seus pés, apesar de ser uma idéia bem excitante, não ajudaria em nada um aventureiro, que já tem de salvar sua pele e ajudar seus parceiros a salvarem as suas. Isso somente traria muita dor de cabeça e motivos para passar o resto da vida se escondendo, e definitivamente Lyem Aquai não nasceu para se esconder. Nasceu para ser um dos maiores heróis que este mundo já viu.
Mas o principal motivo para manter a máscara bem segura frente a sua face são as gêmeas Katrina e Katarina. O coração de ambas pertence ao meio-elfo, mas elas nunca viram sua face descoberta. Estão apaixonadas pelo mesmo motivo que seduziu Isa. O jovem as conquistou com seu charme natural para com as mulheres, com seu carisma, seu jeito galante e encantador, e ele com certeza não queria perder esse sentimento que elas nutrem por ele. Não queria ver mais nenhuma mulher se matando por sua causa, assim como não queria perder um sentimento verdadeiro, como o das gêmeas, para uma maldição. Portanto, ele jamais baixava sua guarda perante sua sina.
Agora com a máscara em seu devido lugar, fora acordar seus parceiros e parceiras, pois precisavam arrumar suas coisas, fazerem as compras necessárias e partirem o mais rápido possível daquela cidade, antes que Moóck voltasse e os obrigassem a morar o resto de suas vidas ali. Lyem voltou à sala onde havia dormido, pois lá ainda estavam Radagast e Achir, ambos com o peito nu, dormindo calmamente em alguns panos estendidos no chão. Lyem tentou acordar os amigos chamando-os e cutucando-os suavemente, mas parecia não estar adiantando nada. Então tentou uma tática diferente.
-PELOS DEUSES DO PANTEÃO! MOÓCK ESTA ATACANDO, CORRAM PARA SALVAREM SUAS VIDAS, E NÃO SE PREOCUPEM JOVENS DAMAS, EU AS SALVAREI! - berrou, pulando de um lado para o outro perto dos amigos. Assim consegui despertá-los.
-Ah socorro! Eu não quero morrer virgem! - Gritou Achir Snycer, com pavor na voz e na face, balançando os braços na frente do peito e se sentando em um movimento brusco. - Não que eu seja virgem ainda, há alguns anos eu conheci uma mulher...- tentou explicar o bardo, com a cara toda vermelha parecendo um tomate, quando percebera que não havia ataque nenhum, mas sua explicação foi abafada pelas risadas de Lyem e Radagast, que gargalhavam segurando a barriga, que começavam a doer, de tanto rir da confissão que acabaram de ouvir.
-Não tenha vergonha - disse o feiticeiro com um sorriso muito maroto, já se levantando para se trocar, - Eu também demorei para me tornar um “homem de verdade”, mas tudo tem seu tempo, fique calmo. - afirmou terminando de vestir seu grande robe azul, escondendo uma tatuagem estranha no seu peito, na qual ele nunca mencionava, e sempre mudava de assunto quando falavam dela. Achir, muito envergonhado, ainda mais depois destas “palavras de consolo”, também já estava de pé e vestindo sua camisa branca e o colete marrom, logo depois de ter amarrado sua bandana verde com finas listras brancas na testa, segurando os cabelos para trás para que os mesmos não caíssem em seus olhos.
-Eu NÃO sou mais virgem. - afirmou o bardo, acentuando o “não”. - eu estava tendo um pesadelo, só isso, - continuou, desviando o olhar dos rostos de seus amigos que ainda continham risinhos, apesar do bardo não ter visto o de Lyem, mais sabia que ele também achara graça.
-Bom saber que você já não é mais virgem, Achir, esta era uma duvida que não saia de minha cabeça desde que nos conhecemos. - disse, com um tom zombeteiro, Katarina, abrindo a porta e saindo, seguida de sua irmã Katrina, do quarto em que ambas dormiram. As duas haviam acordado com a gritaria dos rapazes na sala, e já estavam vestidas de armadura e robe, respectivamente. - Agora, por favor, será que podemos deixar esse importantíssimo assunto de lado e irmos comprar logo o que precisamos para ir embora o mais rápido possível daqui, não quero ter de morar aqui o resto da vida - completou Katarina, com uma voz firme e decidida, como se qualquer outra opção estivesse fora de cogitação.
-Vocês a ouviram rapazes, o que estão esperando? VAMOS! - disse o líder do grupo, com o peito estufado e uma voz tão firme como a de Katarina. Mas ninguém saiu da casa naquele momento, pois a porta havia sido aberta, e um homem de aproximadamente um metro e noventa de altura, vestindo uma grande armadura prata com detalhes vermelhos entrara na casa onde o grupo se hospedara na noite passada, impedindo a única porta que dava para a cidade lá fora. - Olá guerreiro! Muito bom dia. - disse Lyem fazendo uma grande reverência, - Trévis não esta em casa, ainda esta aproveitando a lua-de-mel, se você puder voltar ama...
- Não estou procurando o gladiador. - Disse Dimictus Bennet, interrompendo Lyem, com uma voz duas vezes mais forte e firme do que a de Lyem e Katarina juntas, e com seriedade no rosto. - Eu quero falar em particular com vocês cinco. Acompanhem-me até minha casa, por favor. - Disse ainda com a voz firme, virando as costas sem nem mesmo esperar que ninguém lhe respondesse uma palavra sequer, dando ao grupo apenas a opção de segui-lo sem contestar.
Mesmo desconfiados, o grupo seguiu o paladino pela cidade que agora já mostrava algum sinal de vida. Alguns comerciantes já abriam as lojas e colocavam a mercadoria em caixotes do lado de fora das portas. Senhoras varriam as entradas de suas casas, conversando calmamente sobre os acontecimentos recentes. Pessoas acenavam para o homem de armadura prata, mas mesmo assim, o grupo estava desconfiado. Lyem não estava fazendo as costumeiras brincadeiras com seus amigos, nem mesmo com Achir, que deixara escapar uma confissão muito interessante há poucos minutos. O único barulho que vinha de Lyem era o tilintar dos tibares em sua saca de dinheiro e a respiração calma, que batia na máscara de madeira, fazendo parecer que o jovem ofegava de cansaço, e esse silêncio preocupava seus parceiros e as gêmeas.
-Ei, eu conheço você! - disse Achir, com cara de surpresa e excitação, quebrando o desconfortável silêncio. - Você é Dimictus Bennet, o grande paladino dos Deuses, braço direito de Christopher, paladino de Khalmyr, membro do maior grupo de heróis de todos os tempos! - o bardo dissera tudo isso numa velocidade impressionante, com um tom de felicidade e respeito na voz, seus olhos brilhavam para o grande e poderoso homem a qual ele se referia, e seu estômago revirava de ansiedade e prazer toda vez que o paladino assentia em silêncio as colocações do bardo. - Então os boatos eram verdadeiros. Você realmente morreu aqui durante um ataque daquela maldita águia! - concluiu dando alguns saltinhos para frente, ficando mais perto de Dimictus.
Todos ficaram muito confusos com o que acabaram de ouvir, e mil pensamentos invadiram as cabeças dos aventureiros. “Se ele é tão forte, como que morreu por uma simples águia gigante?” pensava Lyem, já achando que o paladino não era grande coisa, enquanto as gêmeas refletiam sobre o quão forte era Moóck, que conseguiu matar aquele herói, que visivelmente era mais forte que todos ali juntos. Radagast por sua vez admirava o paladino e pensava na dor que ele sentia, por ter que morar o resto da vida na cidade, deixando os parceiros e as grandes batalhas de lado para ficar vendendo legumes ou roupas, como os outros moradores de Triunphus, como se um herói de tão alto calão fosse fazer algo desse tipo. Mas todos os pensamentos se esvaíram quando Dimictus Bennet parou de caminhar, fazendo assim com que todo o grupo ali também parasse.
-Chegamos. - disse o paladino dos deuses, apontando para uma casa bem pequena, menor que a que os aventureiros haviam passado à noite, toda feita de madeira, mas era mais bem cuidada e limpa que a anterior. - Entrem, por favor. - Dimictus abriu a pequena porta de madeira, deixando à vista o pequeno quarto, bem arrumado e limpo, estendendo a mão para dentro da casa, como um sinal de cavalheirismo, esperando que todos entrassem para logo após entrar também e fechar a porta. - Sentem-se, por favor, podem pegar aquelas cadeiras ali. - disse apontando para alguns banquinhos, que seguravam as portas de um armário velho. - E vocês duas podem se sentar na cama, não vai ter cadeiras para todos. Desculpe-me. - completou olhando para as gêmeas, o tom da voz meio culposo, mas a expressão em sua face não mudara nem mesmo um centímetro.
-Tudo bem, tudo bem. A gente já chegou onde você queria, por favor, fale logo o que quer, para nós podermos ir. Não queremos ter de morar aqui para sempre também! - Disse Lyem, com um tom ríspido na voz e demonstrando desconforto e pressa. A frase foi muito rude, mas o paladino dos deuses não ligou para ela, pois sabia que o aventureiro não estava querendo ser grosso, estava claro que era apenas ciúmes, pois a atenção de todos do grupo não pertencia a ele como de costume.
-Por favor, fique calmo, tenho uma história pra contar e um favor a lhes pedir. - disse Dimictus, acendendo um pequeno fogão e colocando um bule com água e ervas para ferver. Logo o cheiro doce de hortelã tomou conta da pequena casa. Todo o grupo agora estava calado, todos olhando fixamente para o paladino, exceto Lyem, que com os braços cruzados e cara emburrada girava a cabeça, analisando o quarto/sala/cozinha do herói. “Por que diabos ele mora em uma casa tão simples?” pensou.
-Como o jovem ali disse, - continuou Dimictus, apontando para Achir. - eu me chamo Dimictus Bennet, paladino dos Deuses, integrante do grupo de heróis de Christopher, o paladino de Khalmyr. Por um acaso do destino, fui morto pela águia gigante que os moradores daqui chamam de Moóck, e estou fadado a morar nesta cidade até morrer de velhice. - concluiu o paladino, olhando para todos à sua volta. Todos estavam sérios e quietos, olhando fascinados para Bennet. Apenas Lyem, que apesar de estar ouvindo a conversa, ainda não mirava o paladino no olho. Ficava analisando os móveis e as paredes.
-Meus parceiros tiveram que ir para Valkaria, atendendo a um pedido de Talude, Mestre Máximo da Magia. - Disse Dimictus com uma voz melancólica, mas ainda muito firme. - Nós fomos chamados para comparecermos ao pé da estátua da Deusa da humanidade, mas no mesmo dia Triunphus sofreu o ataque que resultou na minha morte, e é claro, os outros tiveram que ir sem mim.
A expressão no rosto do paladino ainda era a mesma desde que ele chamara o grupo na casa do Trévis, mas agora seus olhos estavam brilhando, graças às lagrimas que ali se aglomeraram. As gêmeas e o bardo estavam quase chorando junto com o herói, mas nem Lyem nem Radagast pareciam muito emocionados com a história.
-E ninguém neste mundo sabia de um modo de quebrar esta maldição. - continuou o paladino, se recompondo do estado de choro. -Mas os deuses não queriam que eu me afastasse de meus companheiros, e me enviaram este livro. – continuou, esticando a mão até uma prateleira que estava ao lado da cama, pegando o velho e mofado livro de capa negra. -Nas páginas deste livro existe a explicação de como realizar um poderoso ritual, que, se executado corretamente, pode quebrar qualquer maldição, não importando quem a tenha lançado e em quem. - Todos olharam perplexos para o livro, e Lyem viu nele sua única oportunidade de nunca mais usar aquela bendita máscara.
-Mas por que diabos você ta falando isso para nós? Tem tanta gente aqui nessa cidade que pode te ajudar! - Intrometeu-se Achir, ainda tentando entender o que estava acontecendo. O paladino sorriu.
-Sabia pergunta, bardo! - respondeu Dimictus olhando para a harpa que Snycer carregava. - E a resposta é muito simples. Eu vejo meu grupo refletido no de vocês. Três homens e duas mulheres, um líder chamativo e muito enérgico. Mas por favor, deixe-me terminar de explicar o que eu estava dizendo.
-Talude convocou nosso serviço para algo muito importante, algo nunca feito por ninguém, nem mesmo os maiores heróis de Arton. - disse com modéstia, afinal ele próprio fazia parte de um dos grupos de heróis mais fortes da atualidade. - Minha parceira Isyt me escreveu algumas cartas, e me explicou qual foi a razão do grande mestre da magia ter nos chamado. Ah, o chá esta pronto.
Dimictus levantou e foi ao pequeno fogão, apagou as chamas,jogando água na lenha, e serviu chá para todos, Lyem já estava mais calmo e não sentia mais ciúmes do paladino. Após dar um grande gole Dimictus retomou a conversa.
-Bom, como eu estava dizendo, Isyt me manteve informado todo esse tempo sobre o que estava acontecendo em Valkaria, e o motivo pelo qual eles estão lá é a terrível tempestade que vem devastando nosso mundo, a Tormenta!
Todos já ouviram falar dessa tempestade, que trazia todos os tipos de demônios e devastava tudo que estava a baixo dela, e que toda tentativa de impedir seu avanço, ou descobrir outros locais onde ela surgiria nunca dava certo.
-Talude está ensinando tudo o que já foi descoberto sobre os demônios da tormenta e as propriedades da chuva para meus parceiros, a intenção dele é montar um grupo de estudo e extermínio, e minha presença na Grande Academia Arcana é indispensável! E eu já perdi quatro meses nesta cidade!
PEIN!
Uma panela caíra no chão, assustando as gêmeas e o bardo. Todos olharam simultaneamente em direção da panela caída, e perceberam que havia um pequeno macaco, de uns quarenta centímetros, com uma estranha mecha de cabelo branco no alto da cabeça. O bicho estava comendo um pedaço de maçã. Ele havia derrubado a panela e agora olhava para todos no quarto, muito sereno. Depois do susto, ninguém mais deu atenção ao pequeno símio, apenas Katarina, paladina de Tanna-Toh, manteve sua atenção no macaquinho. Todos deram um gole no chá quase que simultaneamente e voltaram a olhar o livro, logo Dimictus tornou a falar.
-Somente os deuses sabem quanto tempo vai demorar até os quatro ingredientes serem encontrados e trazidos até aqui, portanto não vou mais perder tempo! - disse o paladino, depositando sua xícara na cama e levantando-se. - Para realizar o ritual eu irei precisar de um frasco de uma poção amplificadora de poder arcano; o artefato mágico conhecido como Arcanesfera; a Estatueta de Wynna, que foi construída por seus primeiros seguidores, no formato de um tripé; e um desejo! Estes são os quatro itens necessários para se realizar o ritual. O Ritual do Conceder Divino! - Todos ficaram boquiabertos, até Katarina esqueceu o macaco e olhou incrédula para o paladino, que estava extasiado nesse momento.
-O primeiro item que é citado, eu sei onde podem encontrá-lo. - continuou Dimictus, percebendo que ninguém havia entendido nenhuma palavra que ele disse após ter se levantado. - Há algum tempo, meu grupo e eu visitamos a casa de um grande alquimista, à procura de algumas poções, mas isso não importa agora. Tenho certeza que ele poderá ajudar vocês. Mas receio informar que os outros itens eu não faço idéia de onde estão. - A tristeza que o herói sentia era visível, e pelo modo com que falava com os estranhos a sua frente, ele tinha certeza que o grupo iria ajudá-lo.
E então Lyem se levantou.
segunda-feira, 2 de março de 2009
Meu primeiro Romance
Já faz um bom tempo que não escrevo nada aqui, o que me deixa imensamente triste. Eu amo escrever, e melhor que isso é deixar as pessoas lerem meus trabalhos. O fato de eu não estar postando nada aqui significa que não estou escrevendo nada. ERRADO!
Estou escrevendo sim, e como eu havia dito, estou escrevendo algo realmente grande. Um épico de fantasia para ser mais sincero. O fato de eu não estar postando a obra aqui se da pelo simples motivo que eu vou PUBLICAR este trabalho. Logo, o conteúdo é exclusivo da editora.
E como eu não poderia abandonar meu blog querido, nem aqueles que o leem, decidi que vou postar aqui periodicamente os capitulos do meu primeiro romance, que comecei a escrever logo que terminei de ler o "O Inimigo do Mundo", do Leonel Caldela, há uns 3 anos atrás.
Publicá-lo aqui vai ser legal, pois todos vão poder ver como eu escrevia no inicio, sem experiencia nenhuma, e vão acompanhar a minha evolução literaria conforme a trama vai se desenvolvendo. Acreditem, a mudança é bem visivel hehe.
Mas tem um lado ruim também. Pois o livro nunca foi, e nem sei se vai ser, terminado.
Eu já escrevi mais da metade, mas como o sonho de vê-lo publicado algum dia não pode ser alcansado mais, eu decidi me dedicar a obras que não sofrem desse mal, então deixei o livro de lado.
Agora chega de enrolar. Hoje vou postar o prologo e o capítulo 1. acho que posto o capitulo 2 daqui um mês, para dar tempo de bastante gente ler a primeira parte. Outra boa notícia é que esses posts não vão atrasar, afinal já está tudo escrito mesmo hauhauahau.
Só para lembrar, esta história se passa em Arton, cenário criado por JM Trevisan, Marcelo Cassaro e Rogério Saladino.
O Conceder Divino
Prólogo – Benção/Maldição
Triunphus. Um bom lugar para se morrer.
Logo esta cidade, a que tem o maior número de humanos no Reino dos Halflings, Hongari, seria um ótimo lugar para se viver. Protegida por suas muralhas de mais de vinte metros de altura, a convivência se torna amistosa e agradável, uma vez que ninguém se meta com os negócios da “parte velha” da cidade. Teoricamente.
A maior vantagem, e desvantagem como alguns dizem, de se viver aqui é a benção-maldição que Thyatis, Deus da Ressurreição e da Profecia, impôs aos moradores. Todos que morrem dentro dos limites da cidade renascem, no entanto, nunca mais poderão ir embora, senão morrerão definitivamente. Tudo isso seria, no mínimo, aceitável, se não fosse pelo terrível monstro Moóck. Uma águia gigante, com duas cabeças e duas caudas de serpente, que ataca a cidade pelo menos três vezes a cada mês. A criatura é chamada de Moóck devido ao guincho que emite, enquanto destrói enfurecidamente a cidade abençoada-amaldiçoada
O monstro bicéfalo cospe bolas de fogo, tão terríveis quanto sua própria existência, nos moradores e em suas residências. Estoura tímpanos gritando seus protestos quando os guerreiros, alados ou montados em seus grifos exuberantes, o atacam. Logo, inúmeros viajantes que deveriam estar apenas de passagem pelo local se tornam moradores permanentes da cidade. E isso infelizmente aconteceu com Dimictus Bennet, paladino dos Deuses.
Dimictus Bennet é um aventureiro, melhor que isso, ele é um herói. Braço direito do líder de seu grupo, o grande Christopher, paladino de Khalmyr. O grupo de Christopher recebeu uma convocação de Talude, o Mestre Máximo da Magia, enquanto estavam em Triunphus, intimando-os para encontrarem-no ao pé da grande estátua de Valkaria, na cidade que leva o nome da deusa. Quando estavam de partida, a terrível águia bicéfala atacou a cidade, e infelizmente Dimictus pereceu diante da força incrível do monstro. Era de conhecimento de todo o grupo que seu amigo iria voltar à vida, mas o milagre cobra seu preço, pois Triunphus reclamou o paladino para si.
Christopher e os outros foram se encontrar com o poderoso mago, deixando seu amigo ainda morto na cidade. Eles não podiam perder tempo, como dizia a “intimação”, logo, não podiam esperar seu amigo voltar do reino dos Deuses para se despedirem formalmente. Quando Dimictus acordou percebeu que seus amigos tinham partido, o que era a atitude certa a se tomar, mas ele não desistira de se juntar aos outros. Começou a pesquisar de todas as maneiras possíveis sobre a benção/maldição e como quebrá-la, mas ninguém e nenhum livro pareciam saber como desfazê-la.
Certa noite, o paladino dos Deuses sonhava com seus parceiros. Estavam todos juntos fora da maldita Triunphus. Seu companheiro Christopher lhe dera um livro.
-Nele você encontrará a resposta de como se livrar desta maldição meu caro amigo, a resposta que tanto procura para se juntar a nós novamente. - dizia a voz calma e forte do líder. E quando acordou, Dimictus percebera que o mesmo livro de seus sonhos estava ali, em cima da escrivaninha perto da cama, a mesma capa preta com as mesmas manchas de sangue e o mesmo verde escuro de bolor. As mesmas páginas amarelas e corroídas por algo que deveriam ter sido traças, e no meio do livro, a mesma fórmula que poderia juntar todo o grupo novamente.
Capítulo 1 – Casamento/Duelo
Dimictus, mesmo após os quatro meses na cidade, ainda era um morador que chamava muita atenção. Como bom paladino que é, vestia uma grande e brilhante armadura, toda feita de prata, com grandes detalhes vermelhos nas ombreiras e no peito. Sua armadura não traz o símbolo de nenhum Deus específico, pois ele é devoto a quase todo o panteão; ao lado de sua perna esquerda pende sua espada, que tem quase o dobro do tamanho de seu braço, com a lâmina reta e o mais afiada que uma lâmina pode ser. E a visão deste cavaleiro tão imponente não é muito comum aos moradores de Triunphus, mas hoje ele não é a única pessoa “diferente” na cidade.
Na tarde de hoje seria realizado um grande evento, muito raro, animado e, de certa forma, romântico. Um casamento/duelo. Um dos maiores gladiadores da grande Arena de Jogos, o estupendo Trévis Lionkiller, iria se casar com uma colega de trabalho, a gladiadora Miika Nutkicker. Não há maneira melhor de se celebrar um casamento desta magnitude se não com um duelo entre os noivos, até a desistência ou uma morte bem cruel de um deles, para que dali alguns dias eles possam partir para a lua de mel.
Este com certeza não é um evento que se vê todos os dias na arena dos gladiadores, logo, muitas pessoas e aventureiros de todo o reino de Deheon, e de alguns reinos vizinhos, vieram contemplar o duelo, conhecer os noivos e participar da grande festa que iria acontecer logo após a desistência de um deles. E esta é a oportunidade perfeita que Dimictus estava esperando desde que terminará de ler o livro embolorado e velho que lhe foi dado em sonho por seu líder. O experiente paladino estava atrás de um grupo de aventureiros dispostos a ajudá-lo. O ritual para acabar com a bênção/maldição era simples de certo modo, mas nenhum “ingrediente” encontrava-se na cidade.
A cerimônia ainda não havia começado, e as arquibancadas da arena já estavam transbordando espectadores, um empurra empurra insuportável, todos querendo falar mais alto do que o colega ao lado, o que já começara a incomodar as pessoas que foram convidadas, pois eram amigos ou parentes dos noivos, o que era o caso de Lyem Aquai, amigo do noivo da época que seu sobrenome ainda não era Lionkiller. Lyem tinha um grande chapéu roxo escuro de três pontas, fino e comprido, com uma pena roxa presa por uma fita laranja. Usava também uma máscara de madeira, fina, pintada de branco, com a face triste e lágrimas pintadas de preto nas bochechas, estava muito sério, pois o povo estava gritando ao pé de seu ouvido, fazendo-o zunir e incomodando-o.
Lyem estava quieto até agora, mas quando finalmente o noivo entrou na arena, pisando calmamente os pés descalços na areia, trajando sua armadura de cobre, que revestia somente o ombro e braço esquerdo e segurando uma maça lisa na mão direita, o jovem mascarado gritou muito mais alto que todos na arquibancada, tamanha era a felicidade que o invadira neste momento. “Trévis Mijão, parabéns seu sortudo de uma figa”, gritava o mascarado, assustando quem estava ao seu lado.
-Fica calmo chefinho, você esta fazendo a gente passar vergonha. – disse em jovem bardo sentado atrás de Lyem, tocando-o no ombro. Achir Snycer era o músico do grupo de aventureiros sob o comando de Lyem.
-Certo, certo, mas olha só pra ele, nem parece o mesmo depois de tanto tempo. – desculpou-se, a voz abafada atrás da madeira, com os membros do grupo, que se escondiam atrás das vestes, corados pelo constrangimento repentino que seu líder os fizera passar, e ainda fazia, agora que a noiva entrara na arena, vestida com tiras de couro marrom escuro, empunhando um escudo e uma maça igual a de seu noivo, o jovem líder desferia socos ao céu dando gritos alternados, a cada soco, um grito.
Lyem era amigo de longa data de Trévis. Eles se conheceram ali mesmo, em Triunphus, em umas das viagens do aventureiro. Ele fora assistir um duelo de gladiadores, onde Trévis também estava assistindo, e por coincidência sentaram-se juntos e torceram pelo mesmo combatente. Logo após conversarem, entre gritos e ofensas, eram grandes amigos, e o aprendiz de gladiador chamara o jovem Lyem para passar algum tempo em sua casa, para conhecer sua família e economizar o dinheiro que gastaria com uma estalagem. Em alguns dias eram quase como irmãos. Mas Lyem decidiu ir embora, após ter ouvido sobre a benção/maldição da cidade, e hoje, anos depois de sua partida, ele voltara a se encontrar com o amigo.
O duelo/casamento finalmente começou, e podia se ouvir claramente os gritos inconfundíveis, que ecoavam muito mais alto que qualquer um na platéia, mas agora o vocabulário se restringia apenas a “ISSO, VAI, VAI!” quando o noivo desferia o golpes, todos em vão pois Miika sabia usar um escudo muito bem, e a “NOSSA, QUASE!” quando a maça da noiva quase acertava seu amigo. Para os combatentes a peleja parecia durar horas, mas se durou dez minutos foi muito, pois num golpe muito bem planejado, após Trévis Lionkiller ter investido contra sua noiva, a mesma aparou o golpe com seu escudo, e usando mais força do que aparentava ter. Ela o derrubou no chão e instintivamente aplicou o golpe que é sua marca registrada e que lhe dera seu sobrenome de gladiadora. Com um chute preciso e muito forte, ela acerta a genitália de seu esposo e oponente, e com um coro bem ensaiado, todos os homens da platéia, não importando raça, deram um grito de dor, como se eles próprios tivessem levado o pontapé.
-Nossa que burra, não vai mais ter filhos. - comentara com cara de dor o jovem bardo para seus parceiros.
- Eu desisto – disse Trévis, com os olhos fechados com força, desfigurando sua face, tentando erguer uma mão para sua noiva, como sinal que ela já podia parar de bater nele, e com a outra mão segurando a “vítima” do poderoso chute. Ela o ajudara a se levantar, meio cambaleando ainda e sentido o ar voltando aos poucos para os pulmões, um olho entre-aberto e o outro ainda fechado, com areia grudada ao suor do corpo, os dois reverenciaram a platéia, quatro vezes, uma pra cada direção da arena, Lyem gritava até sentir a voz quase sumir, e só não passou por cima das pessoas à sua frente e pulou na arena para cumprimentar o amigo porque seus parceiros o seguraram pelo grande sobretudo roxo escuro, da cor do chapéu.
Finalmente os dois gladiadores estavam casados, eram agora marido e mulher. Após a euforia do final do duelo ter se dissipado levemente, Miika puxou o ar e gritou com toda a força que lhe restava:
- OBRIGADO A TODOS QUE VIERAM NOS ASSISTIR! NÓS GLADIADORES NÃO SOMOS NINGUÉM SEM VOCÊS PARA NOS DAR APOIO NOS MOMENTOS DIFÍCEIS, E EU FICO MUITO GRATA POR TEREM VINDO NOS DAR FORÇA TAMBÉM NESTE MOMENTO TÃO FELIZ PARA NÓS. - uma lágrima escorrera do olho de Trévis. - AGORA VAMOS TODOS PARA A PRAÇA, A FESTA CONTINUA LÁ. - todos gritaram, pularam, e com todo esse alvoroço, muitos ladrões da parte velha da cidade festejaram também o dinheiro fácil.
Lyem agora estava fora da arena, junto com seus parceiros, as gêmeas Katrina e Katarina, clériga e paladina, respectivamente da Deusa do conhecimento Tanna-Toh, o bardo Achir Snycer e o jovem e belo feiticeiro Radagast Tasir. Estavam procurando os noivos para lhes parabenizar pessoalmente. As ruas estavam tão movimentadas e barulhentas como a arquibancada da grande Arena de Jogos, mas aqui os ladrões já não trabalhavam tanto. Todos estavam falando sobre o combate, dizendo que o noivo perdera de propósito, o que era muito cavalheiresco, segundo as senhoras que tocaram no assunto. Falava-se também da sorte dos noivos por terem se casado alguns dias depois que Moóck, a terrível águia monstro, já havia atacado, o que era sinal que tão cedo ela não voltaria. De longe, Lyem avistara seu amigo, Trévis “Mijão”.
- MIJÃO! Não acredito que você se casou, venha cá me dar um abraço! - disse muito feliz, apesar da triste máscara não ter deixado transparecer, o velho amigo do noivo, com os braços abertos esperando um abraço. Miika olhou assustada para a cena, e pensara consigo mesmo se tinha ouvido bem o nome pelo qual o estranho convidado chamara seu marido.
-MULHERENGO! Que bom que pôde vir, estava preocupado. - respondeu Trévis, dando um forte abraço, todo sujo de areia e suor, no amigo que não via há anos. Na hora em que Lionkiller chamara Lyem pelo apelido, o bardo e o feiticeiro olharam, quase que na mesma hora, para as gêmeas, meio que prevendo que elas fariam alguma coisa muito desagradável naquele momento, mas ambas mantiveram o sorriso sincero de felicidade pelos noivos, mesmo que por dentro elas gostariam de dar uma boa surra em Aquai. - vejo que você finalmente se tornou um aventureiro, estes são seus parceiros? Será uma honra tê-los como meus convidados para passarem a noite em minha casa, enquanto eu vou para a minha merecida lua-de-mel. - disse o gladiador com um sorriso de orelha a orelha, cumprimentando a todos os aventureiros.
- Venham conhecer minha esposa. Querida, querida, este é Lyem Aquai, meio-elfo, swashbuckler e meu melhor amigo. - anunciou o gladiador, secando o suor de sua careca que refletia a luz de Azgher em todos ali a sua volta. - Lyem, esta é Miika Sisri, ou Nutkicker, como vocês puderam ver. Uma grande gladiadora e a mulher que eu amo.
Com um movimento rápido, gracioso, quase felino, o meio-elfo retirou o chapéu com uma das mãos, levando-o próximo aos pés, e com a outra mão segurou delicadamente a mão direita da noiva.
-É um enorme prazer conhecer a mulher que criou juízo na cabeça de meu amigo. - disse, indo dar um beijo na costa da mão de Miika, quando levou um forte soco na cara, o que quase fez sua máscara cair. Automaticamente veio a imagem das gêmeas em sua mente, achando que alguma das duas havia feito aquilo, mas não fora nenhuma delas.
- Ora pare de frescura rapaz! - disse Miika, com a voz ríspida, e com uma grande veia saltando do meio de sua testa larga, bem perto de onde os longos cabelos castanhos escuros nasciam – me cumprimente com um abraço forte, igual a um homem de verdade! - tanto as gêmeas quanto o bardo e o feiticeiro não conseguiram conter a risada. Aquela era uma cena muito rara, o grande swashbuckler sendo repreendido por uma mulher, mas os risos cessaram junto com o abraço, que quase quebrou as costelas de Lyem.
-Olhe querida, estes são os parceiros dele. - disse muito contente o noivo, apontando para as quatro pessoas que estavam observando um pouco afastadas, mas que agora já chegavam mais perto, para dar os parabéns a noiva. - Eles vão dormir em casa hoje, enquanto nós não estivermos lá. - Trévis terminou a frase com uma piscadela cheia de malícia com o olho direito. - Venham, eu vou lhes mostrar onde é que eu moro enquanto eu ainda lembro o caminho! Daqui a pouco, depois de muita bebida, não quero lembrar nem meu nome mais, venham! - convidou os aventureiro para passarem por entre a multidão, com o braço erguido, segurando uma grande garrafa de cerveja, que servia como guia para que ninguém se perdesse ali naquele aglomerado de bêbados e fanfarrões.
A casa era bem perto da arena, mas devido ao grande número de pessoas no meio do caminho, todas bebendo e dançando, inclusive Lyem, que dançava e pulava mais alegre do que até mesmo o noivo. Mas o meio-elfo não tomou uma gota de álcool, por motivos pessoais. Andaram quase meia-hora até chegarem.
-Aqui, chegamos. E pequena e simples, mas da para abrigar todos com conforto. - disse o noivo, apontando com um largo sorriso para uma casa de porte médio, se comparada com as que tinham em volta. Um casebre todo feito em madeira, mas muito firme e convidativa. - Coloquem suas coisas aí e vamos voltar para a festa, minha noiva esta me esperando. - dito isso, todos entraram para guardar as pequenas bolsas que levavam seus mantimentos, peças de roupas etc. Por dentro a casa era maior do que parecia, com uma grande sala logo na entrada, uma mesa redonda no centro, adornada com uma bela toalha branca de detalhes bordados em volta, uma cesta de frutas no centro do móvel, armas e armaduras em um armário no canto ao lado da porta que dava para um dos quartos. Depois de deixarem as coisas ali na sala mesmo voltaram para a festa. Com um grito animado e espada em riste, Lyem foi o primeiro a sair.
A comemoração ainda durara mais de cinco horas. Parecia que toda a cidade estava lá, dançando, bebendo, xingando, pulando, vomitando para beber novamente. Alguns caiam no sono ali mesmo no meio da festa, e por pouco não eram pisoteados, e agora os ladrões tinham muito trabalho. Mas o único que não estava bebendo, e mesmo assim estava mais animado que todos, era Lyem. Até as gêmeas estavam bebendo a cerveja, que de cinco em cinco minutos, Achir vinha trazer para elas e para o feiticeiro. Mas não Lyem, ele não podia se dar ao luxo de ficar bêbado com tanta gente em volta, com tantas mulheres em volta, as gêmeas nunca o perdoaria.
Quando os noivos foram embora, Lyem decidiu que era melhor eles irem dormir também, pois amanhã teriam que comprar mantimentos e seguir viagem.
-Mas chefinho, a gente não esta em nenhuma missão agora. - resmungou o bardo, com a boca fofa e falando engraçado, devido ao efeito da cerveja. Apenas um olhar de reprovação por de trás da máscara, foi o suficiente para que todos concordassem que era hora de ir para cama. Depois que todos já estavam se acomodando nos aposentos, e o efeito do álcool estava quase passando, Lyem viu as gêmeas irem dormir juntas, e com uma cara de safado, que a face triste de madeira escondeu, perguntou se podia dormir com elas.
-É claro que não seu safado sem vergonha! Espera a gente ficar bêbada e tenta levar as duas de uma vez! Não se esqueça da sua promessa, e só quando você fizer sua escolha dormirá com UMA de nós! - respondeu Katarina, a paladina de Tanna-Toh, com uma voz que para ela parecia brava, mas ainda soava engraçada, com a língua ainda bêbada. Mas aquilo abalou o meio-elfo, que quase quis se matar, e se arrependeu de não ter bebido também, assim ele não se sentiria tão mal, e foi dormir com peso na consciência.
Do lado de fora da casa naquele momento, estava Dimictus Bennet, feliz por finalmente ter encontrado os aventureiros que precisava.
-Descansem meus amigos, amanhã será um dia importante pra vocês, muito importante. - disse o paladino para ninguém emespecial, olhando com cara de entusiasmo e felicidade para a pequena casa de madeira, que acabara de apagar a única luz que estava acesa.
domingo, 2 de novembro de 2008
Roubo Impossível - parte FINAL (isso mesmo gente, ACABOUUU)
eu estava devendo isso aqui faz tempo ein!
Mas finalmente aqui estou, postando o final do Roubo Impossível.
É engraçado como são as coisas né. Eu pensei em toda a trama desta narrativa em cinco minutos, não só nela, como também em uma continuação.
Cinco minutos para criar, mêses para escrever. Uma lástima.
Como eu queria me dedicar mais a este blog e aos meus projetos literários. Por mim eu passava horas e horas só escrevendo. Poucas coisas eu gosto tanto de fazer quanto escrever.
Porém a faculdade toma grande parte do meu tempo, fora a mágica.
Por causa da facul e de outros rolos este conto demorou tanto para acabar. MAS, acabou. É até gostoso escrever isso aqui viu. ACABOU.
No começo eu adorava escrever sobre o Tony. Eu me identificava com ele. Porém, um novo projeto surgiu. Um ÉPICO.
Ainda não vou falar muita coisa sobre isso, mas eu quero que saibam que coisas diferentes vão começar a pintar por aqui. A fantasia está me chamando de volta, e este é um pedido que eu não posso, e nem quero, recusar.
Escrever um conto no mundo real foi divertido. Menos do que eu pensava, mas milhões de vezes mais construtivo do que eu sequer imaginei.
Acho que escrevi muita coisa interessante no Roubo Impossível, o que me serviu como uma grande lição.
Espero que todos tenham gostado. Chega de enrolação. Podem terminar de ler:
Algumas horas depois já era de manhã. Tony foi liberto de seu pesadelo, onde seu show havia se tornado um fiasco por ter errado uma de suas mágicas mais famosas, por sua mãe, que fora o acordar para tomar café.
-Vamos Antônio, acorde. Seu pai já está arrumando a mesa para o café. – Sua voz era calma e sem qualquer alarde, diferente dos gritos e vaias oníricas que atormentavam o sono do mágico.
-Tony mãe. Só Tony. – sua voz saiu ainda chiada e sussurrada, enquanto o rapaz se esticava todo na cama, tentando mandar o sono e a preguiça embora.
-Não gosta mais do nome que sua mãe te deu, rapazinho? – não havia mágoa no tom de voz da mulher, pelo contrário, sua pergunta foi irreverente, acompanhada por uma risadinha. Mas o mágico não respondeu, apenas resmungou. – Pois ande logo, escove os dentes e penteie este cabelo que está horrível. – disse enquanto terminava de arrumar o lençol na cama. Depois, sem mais nenhuma palavra, saiu.
Tony estava tirando a calça e camisa social, que usara o dia anterior todo, para se vestir mais confortavelmente. Minutos depois já havia escovado os dentes e se dirigia para a cozinha, onde seu pai e sua mãe já estavam sentados, tomando o café. A mesa estava bem arrumada, com pães, um jarro de leite e um outro um pouco maior de suco, um pote de manteiga aberto, com uma cratera funda na superfície de pasta amarela, devido à mania de seu pai em enfiar a faca lá no fundo.
-Chegou tarde ontem, não foi? – o tom áspero na voz de seu pai trouxe uma careta até a face de Tony. – Eu fui te perguntar como tinha sido a apresentação, mas seu quarto estava todo arrumado ainda. – “Um sinal de que com certeza você ainda não tinha chegado.” pensou o homem.
-A foi tudo ótimo! Conheci uma menina maravilhosa, mas ela não foi o motivo de eu ter chego tarde! – disse abruptamente o mágico ao ver os olhos de sua mãe arregalarem-se assustados. – Eu nem sai com ela depois do show. Mas não foi culpa minha! – Tony agora se explicava diante do olhar frustrado do pai. Essa antítese de opiniões que seus pais jogavam contra ele o deixava meio confuso, e para ajudar com a dor de cabeça o nome Alessandro ainda o atormentava.
Depois de dar um gole em seu suco, o mágico continuou.
-Depois do show eu tive que ir à delegacia de novo, mas não como acusado! – os dois agora, pai e mãe, estavam assustados. – Dessa vez o policial veio pedir minha ajuda.
-Ajuda? – seu pai perguntou, depois de dar uma mordida no pão e em seguida um gole no suco, misturando tudo na boca e engolindo. – Como assim, nem idade pra ser policial você tem.
-Sim, sim,- retorquiu o rapaz, não achando graça nenhuma no tom sarcástico do pai. – mas ele veio pedir minha ajuda como mágico. Ele queria ver se eu reconhecia o ladrão, ou o estilo dele, pelos vídeos gravados pelo sistema de segurança.
-E você reconheceu? – dessa vez fora sua mãe quem perguntou. Alguns farelos de bolacha voando de sua boca em meio ao medo e apreensão.
-Não. Era impossível. Ele usava um terno tradicional, que todo mundo usa, não só os mágicos. E fez uma mágica com uma carta de baralho que eu só conhecia nas histórias em quadrinhos. – alguns segundo de silêncio enquanto o rapaz tomava outro gole, a curiosidade estampada fortemente no semblante do casal. – Ele desmaiou um guarda tacando a carta nele.
Seu pai bufou algo inteligível, mais para si mesmo do que para o filho, enquanto sua mãe se benzia, fazendo o sinal da cruz.
Cerca de quarenta minutos depois o garoto estava entrando novamente na delegacia, porém desta vez estava sozinho. Tony decidiu ir até lá por conta própria. Perguntou ao balconista sobre Artur e aguardou em pé enquanto o rapaz do outro lado do balcão fazia uma ligação. O dia amanhecera absurdamente quente naquela manhã, e o mágico percebeu as duas manchas escuras no uniforme do moço, bem debaixo das axilas. Limpou o próprio suor da testa e virou-se para trás quando ouviu chamarem seu nome.
-Antônio! Você veio pra cá sem ter sido arrastado por mim? É, como as coisas mudam. – cumprimentou o policial num tom brincalhão que não combinava com ele, estendendo a mão direita.
-Pois é. Mas nem tudo que deveria mudar muda, não é? Quantas vezes tenho que te pedir para me chamar de Tony? – respondeu o mágico, com um sorriso acanhado no canto da boca, enquanto apertava a mão dura e grossa do policial.
-Desculpa, mas acho que nunca vou conseguir me lembrar disso. – Tony quase deu um passo para trás, estranhando o comportamento amigável que não existia em Artur dias antes. Ao invés disso contribuiu o sorriso do oficial. – Vamos até minha mesa, lá podemos conversar melhor.
-Claro.
Artur era um dos poucos policiais que tinha uma sala só para ele na delegacia. Uma sala bem modesta, diga-se de passagem. Um pouco maior que um quarto, seu espaço era ocupado por uma mesa de madeira bem no centro, uma mesa menor de mármore no canto, cheia de pastas em cima, um pequeno frigobar no outro canto, uma estante que tomava uma das paredes inteiras e vários papéis espalhados por todo lugar. Em cima da mesa central estavam os documentos reunidos no caso do mágico que estava roubando bancos.
-Vamos, sente-se ai. – Artur apontou uma das cadeiras almofadas que ficavam na frente de sua mesa, enquanto dava a volta no móvel para acomodar-se na sua poltrona. – E me diga por que é que veio aqui me visitar. Tenho que confessar que estou morrendo de curiosidade.
-Na verdade nem eu mesmo sei. É sério! – completou rapidamente quando viu a expressão de descrença do policial. – Eu peguei o carro do meu pai e comecei a andar sem rumo, com a cabeça viajando por assuntos diversos. Quando parei, estava aqui na frente, então decidi vir dar um olá.
-Sei, sei. Você acha que pode enganar um policial velho que nem eu? – perguntou o oficial com um sorriso largo que mostrava seus dentes amarelos. – Eu consigo enxergar seu desconforto através dessa sua calma fingida. Vamos lá garoto, não é hora para se sentir vergonha. Não nesta altura do campeonato. Desembucha logo e fala qual é o problema.
-Certo, certo. Acho que não tem como mentir pra você mesmo. – admitiu o mágico com um sorriso tímido, que não era muito comum de sua parte. – Realmente tem algo me incomodando, mas acho muito difícil ter alguma ligação com esse mágico ladrão de Bancos.
-Bom, eu não sou nenhum psicólogo, mas diga lá, alguma ajuda eu posso te dar, dependendo do caso.
-Obrigado, mas acho difícil. Ontem a noite eu li uma matéria de um mágico que fazia truques de “escapismo” que errou um dos truques no meio de uma apresentação e ficou arruinado depois disso. Parou de fazer mágica e sumiu. Irônico, não?
Artur concordou com um grunhido.
-E agora você está com medo de errar também?
-Acho que sim. Cheguei até a sonhar com isso essa noite. E o nome do bendito mágico não sai da minha cabeça até agora.
-E como ele se chama?
-Alessandro.
-Alessandro do que? – o policial agora tinha o mesmo olhar fanático da tarde anterior, como se o nome do mágico tivesse levado embora sua felicidade e trazido de volta a paranóia dos policiais dos filmes americanos. E foi exatamente o que aconteceu.
-Não me lembro. Na matéria não falava o sobrenome dele. Só o nome artístico mesmo. Por quê?
-Antônio, se meu palpite estiver certo, e eu tenho quase certeza que está, essa sua informação pode ter solucionado o caso! – os olhos do policial brilhavam com entusiasmo.
-Qual informação? Eu não disse nada. E me chame de Tony, certo?
-Eu vou te mostrar! – respondeu o oficial, ignorando o pedido do mágico para ser chamado pelo apelido. – Alessandro Pertinel é o engenheiro responsável pela segurança de todos os bancos que foram roubados até agora. Este fato fez com que ele se tornasse nosso primeiro suspeito, mas em todos os casos ele tinha um álibi.
-Mas então como é que foi ele, se ele tinha álibi?
-Antônio, Antônio. A coisa mais fácil do mundo hoje em dia é conseguir esse tipo de coisas. E só ter grana. O que não falta pra quem acabou de roubar um Banco, não é? – Artur tinha se levantado para pegar os papéis sobre o caso, e os folheava com rapidez, como um morto de fome sobre um prato de comida. Tony ia corrigi-lo de novo, mas desistiu. – Achei! – exclamou o policial estendendo uma das folhas para o garoto.
-O que é isso? – perguntou o mágico, mais para si mesmo do que para Artur. Era a ficha do engenheiro, com endereço completo, todos os dados pessoais e uma foto. Quando os olhos de Tony encontraram a foto seu estomago pareceu se congelar por um segundo. Os traços do rosto estavam mais velhos, havia um pouco menos de cabelo, mas sem dúvida alguma, era o mesmo Alessandro das páginas da revista de mágica.
O policial pareceu ter percebido a surpresa do mágico, pois perguntou se estava tudo bem, e se ele reconhecia o rapaz da foto.
-Reconheço sim. Foi por causa dele que tive o pior pesadelo da minha vida ontem de noite.
****
A viatura voava baixo nas ruas da cidade. Artur também dirigia com o fanatismo e ousadia de Hollywood, o que fez Tony arrepender-se de não ter ido com o carro de seu pai.
-Você não tinha que ter um mandato para ir lá prender o cara? – perguntou o mágico com o pouco de ar que ainda lhe restava. Suas mãos agarradas ferozmente ao banco.
-Você se preocupa demais com detalhes, Antônio. Agora que solucionamos o caso, nada nem ninguém vai me impedir de prender esse sem vergonha.
-Mas a gente nem sabe ainda se ele é realmente o ladrão! – o mágico estava à beira do desespero, tentando não olhar para a rua e para os carros que, por poucos centímetros, não colidiam com a viatura.
-Eu sei.
****
Alessandro jogou-se no sofá da sala, enquanto pegava o controlo remoto da televisão. Seus pés, braços e pernas estavam doendo, afinal, passara a manhã inteira lavando seu carro importado novo. Comprou o carro a prazo, não porque não tinha dinheiro, afinal depois de roubar alguns Bancos o nosso próprio cofre fica meio recheado. “Gastar mais de duzentos mil reais a vista depois de assaltos à Bancos é pedir para ser preso” pensou consigo mesmo, afundado em seu ego.
Seu coração se acelerou com o susto que levou quando seu celular começou a vibrar em cima da mesa, zunindo alto como uma cigarra. Ele tinha feito tudo certo para não ser rastreado, mas a paranóia ainda assim martelava sua cabeça com a força de um trovão. O cristal do aparelho brilhava como a sirene da policia, com a palavra “Amor” aparecendo e sumindo conforme as luzes acendiam e apagavam. Passado o susto o rapaz alcançou o telefone, com um sorriso já nos lábios, e atendeu;
-Olá minha querida! Tudo bom com você? Que bom. Comigo também está tudo ótimo. Estou com saudades também meu amor. Sim, sim. Está lá na garagem, limpinho, só esperando você vir pegar. Mas é claro...
Alessandro não terminou a frase. Uma freada brusca seguida de um breve cantar de pneus fez seu batimento cardíaco acelerar mais uma vez. Uma gota de suor brotou em sua testa e escorreu até seu olho. A mulher do outro lado da linha perguntava se estava tudo bem, enquanto ele foi até a janela ver o que era. De repente todo o ar de seus pulmões pareceu se extinguir, como se tivesse levado um soco na boca do estômago. Um carro da policia tinha acabo de para na frente do portão de sua casa e o mesmo oficial que tinha lhe interrogado algumas semanas atrás desceu do veículo, arma em punho e cara de pouquíssimos amigos.
O desespero fez seus músculos tremerem, derrubando até o telefone no chão, com a mulher do outro lado da linha perguntando aos berros o que estava acontecendo. Mas Alessandro não ouvia mais uma palavra. Seu coração batia forte nos seus ouvidos e na garganta. As pontas de seus dedos formigavam. A paranóia fazia o rapaz suar por todos os poros, enquanto inundava sua mente com as mais absurdas teorias. É engraçado como uma mente acuada e desesperada se esquece das restrições da realidade.
O ex-mágico correu até a escrivaninha da sala de visitas, abriu a última gaveta meio desajeitado por causa da pressa. Revirou os panos de prato e alcançou sua arma 9mm. Seu peito arfava e a cabeça latejava. Aquilo não podia estar acontecendo. Ele não podia ter sido descoberto, porém, a determinação na face do policial fizera desmoronar toda a lógica do seu plano. O oficial sabia da verdade. E Alessandro não queria ser preso. E não seria. Se não por bem, então por mal.
Respirou fundo e foi até a janela com a arma em punhos.
****
Artur desceu do carro já segurando seu “três oitão” na mão direita, não porque ele achava que precisaria da arma, mas justamente para não ter que usa-la. Como se empunhá-la deixaria seu alvo com medo, logo, ele não reagiria. Exatamente o contrario do que aconteceu.
O estrondo do tiro que veio de dentro da casa acelerou os corações do mágico do e do policial. Nenhum dos dois foi atingido e o tilintar que o projétil emitiu junto a grade do portão atrás de Artur deixou bem claro quem estava na mira do atirador.
-Abaixe-se Antônio! – gritou o oficial para o mágico, em vão, uma vez que o garoto já estava agachado, escondido atrás de um vazo grande com uma flor exótica que enfeitava o quintal do engenheiro. – Você ainda acha que ele é inocente, Antônio? O maldito atirou na gente. – Artur se protegia atrás do carro de Alessandro, um importado zero quilômetro.
-Isso lá é pergunta que se faça uma hora dessas? A verdade agora está clara, obviamente, mas você poderia, por favor, dar um jeito nisso! Eu não saí de casa hoje para levar um tiro de um doido ladrão de bancos.
O pavor estava estampado nas palavras de Tony. Afinal o garoto tinha bons motivos para estar apavorado. Até mesmo Artur, que foi policial a vida toda e presenciara cenas assim mais de cem vezes, ainda sentia a boca do estômago fria e o suor brotando de todos os poros do corpo. Mas em momentos críticos como este o policial aprendeu que manter a calma é essencial. Então respirou fundo. Sentiu os músculos, que estavam rígidos de medo, relaxarem um pouco.
-Antônio, fique calmo. Não saia daí de trás que nada de ruim vai te acontecer. Pegue seu celular e ligue para a policia. Eles sabem que você saiu comigo, se você pedir reforços para cá eles vão mandar.
-Tudo bem! – Tony ainda estava nervoso. Pegou seu celular tremendo, mas conseguiu discar os três dígitos sem nenhum problema. Em menos de dois minutos já tinha chamado o reforço. –Pronto Artur, eles vão mandar dois camburões pra cá!
Mas Artur não respondeu. O mágico começou a suar frio. O que diabos teria acontecido com o policial. Tony não lembrava de ter ouvido mais tiros, portanto morto ele não estava.
-Artur! Você está me ouvindo?
Nenhuma resposta novamente.
****
-Merda, errei! – Alessandro se escondeu de costas para a parede ao lado da janela depois de ter atirado. Estava nervoso, suando frio, tremendo apavorado, pensando na cadeia, na gororoba que é servida para comer lá dentro, nos criminosos que estariam presos junto com ele. Além da prisão a morte também o assombrava. Numa troca de tiros com o policial e seu parceiro, levar um tiro no meio da testa e puff, tudo termina em um segundo, um plano perfeito que demorou anos para se concretizar apagando-se num piscar de olhos como se apaga uma luz pelo interruptor.
Afastou os pensamentos da cabeça abanando-a com força de um lado para outro. Não seria preso, nem morto. Ouviu os policias conversando aos berros um com o outro. Estavam encoberto agora, com medo de novos disparos. Essa era a oportunidade perfeita para sair pelos fundos, entrar na casa do vizinho, roubar seu carro e ir até a casa de sua namorada. Agora que ele parara para pensar nela deduziu que a coitada devia estar apavorada. Tinha que falar com ela.
Arqueou um pouco as costas e foi correndo em direção a cozinha, onde havia uma porta que dava para a área do fundo. De lá poderia pular o muro caindo direto na casa do vizinho e tudo estaria a salvo. Não olhou para trás em nenhum momento, e alcançara a cozinha sem nenhum problema. A porta dos fundos estava aberta, e na frente dela dava para ver o último obstáculo que o separava da liberdade.
Sua casa era enorme. Enorme também era a mureta que separava sua residência da outra ao lado. Porém a sorte parecia estar ao seu lado, pois havia uma mesa de plástico, daquelas de beira de piscina, encostada na mureta. Se ele fosse correndo, pulasse na mesa e da mesa ele pulasse no muro, conseguiria alcançar o topo. Endireitando sua coluna agora ele correu com toda a velocidade que conseguiu reunir em suas pernas. Porém nem na mesa ele conseguiu chegar.
****
Depois de ter pedido para Tony chamar reforços, Artur saiu de trás do carro, correndo em direção a um pequeno corredor na lateral da casa, entre o muro e a parede da garagem. O caminho que levava para os fundos do terreno era bem estreito e o chão estava bem irregular, o que dificultou um pouco a travessia. Porém o policial corria cada vez mais rápido.
Artur tinha certeza de que Alessandro tentaria escapar. O engenheiro não arriscaria trocar tiros com a policia, e o fato da casa não estar cercada por viaturas era um convite irrecusável à fuga. “Sem falar que ele era um mágico escapista” pensou o policial, achando graça da lembrança inconveniente. Então, se o ex-mágico estava tentando fugir, a única opção óbvia seria os fundos da casa.
O corredor chegara ao fim, transformando o apertado espaço de concreto numa ampla área de lazer, com churrasqueira, mesas de plástico, um piscina de fibra de vidro mais ao canto e a porta que dava acesso a casa. “Ou acesso a liberdade.” Relembrou o oficial, imaginando que Alessandro viria tentar escapar por aqui. No mesmo instante ouviu passos vindo de dentro do recinto. Mais uma vez seus instintos funcionaram perfeitamente. Inverteu a arma na mão, segurando-a pelo cano, e esperou.
Menos de cinco segundos depois Alessandro saia pela porta, apressado, com os olhos fixos no caminho que estava percorrendo, quando Artur martelou a coronha de sua arma na nuca do rapaz. O engenheiro soltou um gemido breve e agonizante, enquanto suas pernas falhavam e ele despencava penosamente ao chão. O oficial chutou para longe a nove milímetros que caiu das mãos do ladrão de bancos, que se contorcia como uma minhoca bêbada.
-Alessandro, Alessandro. Por que fazer as coisas do jeito mais complicado? – perguntou Artur mais para si mesmo do que para o rapaz, uma vez que o mesmo talvez nem ouvindo estivesse. – Eu não queria te machucar, homem. Você não me deixou escolha.
Enquanto isso o oficial retirava suas algemas do cinto, agachando até os pulsos do ex-mágicos.
-Acho que tonto desse jeito você não consegue escapar das minhas algemas. Sem falar que você não deve fazer isso há tanto tempo que nem se lembra mais como é. – disse enquanto soltava uma modesta risada com o canto do lábio.
Depois de algemar o preso Artur segurou-o pelas axilas e o ergueu até ficar
-Tony, pode sair daí de trás! Já está tudo terminado! – gritou o policial quando saiu da casa, empurrando em sua frente o rapaz semi-consciente.
-Eu não acredito! – o mágico apareceu do lado do vaso onde estava se escondendo com um largo sorriso estampado na cara. – Você me chamou de Tony. O mundo está mesmo acabando.
-Achei que ia me elogiar por ter prendido este sem vergonha aqui sem ter que atirar nem ameaçar ninguém. – Artur ria abertamente, gargalhando entre as palavras.
-Ah, isso foi fantástico também, mas nada comparado ao fato histórico de ter dito meu nome corretamente. – o garoto também ria, esquecendo rapidamente o susto e o medo que passara minutos atrás.
-Eu duvido que na sua Identidade esteja escrito ‘Tony’. Mas, acho que por hoje não haverá problemas te dar este gostinho. Mudando de assunto, você fez o que eu te pedi.
-Claro, claro. A moça que atendeu o telefone disse que já estaria mandando reforços pra cá.
-Ótimo. Estou precisando tomar um gole de café, urgente.
****
Poucos minutos depois mais dois camburões chegaram ao local. Alessandro já tinha recuperado um pouco da sanidade. Tentou argumentar que os policiais não podiam fazer aquilo, que não tinham provas, porém, ter atirado contra Artur já era motivo mais que suficiente para leva-lo para o xadrez. Um dos oficiais que chegaram depois conduziu o preso até sua viatura e levou-o embora.
-Tudo bem quando acaba bem. – Disse Tony em tom descontraído.
-É garoto, no fim das contas você desvendou o caso sem revelar nenhum segredo. Ótimo trabalho. – Artur mantinha o meio sorriso no canto da boca, mas o seu costumeiro ar de seriedade o envolvia. Estendeu a mão direito ao rapaz.
-Desvendei nada não. Você que encarnou os policiais dos cinemas e fez tudo sozinho no fim das contas. Deduziu corretamente quem era o ladrão. Invadiu a casa dele e o prendeu tão rápido que pareceu até mágica. – respondeu o mágico enquanto retribuía o aperto de mão.
-Vamos garoto, você já deve estar com fome. Vamos almoçar em casa, quero te apresentar minha filha.
-Opa, demorou.
terça-feira, 7 de outubro de 2008
A coisa ta FEIA!
A coisa ta feia aqui na minha cidade também. Essas eleições foram catastróficas!
No blog eu não posso falar tudo o que eu acho do infeliz que foi eleito aqui, porque pode dar muita confusão para o meu lado.
Mas analisem vocês a situação: o cara fala Quéxi, vocês sabem o que é isso? Ele disse que irira contruir várias dessas.
Dou uma bala pra quem acertar.
E não são só os erros de português do infeliz que me deixam putoo! Muita gente fala errado.. até eu.
Porém, uma pessoa que fala que quer construir postos de saúde 24 horas que "vão funcionar inclusive à noite" tinha que voltar urgentemente para a escola! PELO AMOR DE DEUS!
E essa figura foi eleita! Tem como isso?
Mas tudo bem.. eu falei tudo isso pra tentar escapar das inevitaveis desculpas que devo pra quem quer ler o final do "Roubo Impossível". Contudo, aqui estou eu, pedindo humildemente que me desculpem. Eu prometi terminar o conto em "algumas semanas", o que não aconteceu. Porém eu não fiquei parado nesse meio tempo. Escrevi um conto sobre lobisomens que está participando de uma promoção. Caso eu seja o vencedor, além de ganhar um livro sobre o tema, meu conto será publicado numa E-zine.
Eu já voltei a escrever o conto do Tony, mas não vou prometer nada por enquanto, para não passar vergonha denovo.
Se tudo der certo... daqui uns "tempos" o final sai.
Até lá, vou tentar amenizar minha indgnação com o povo tosco da minha cidade.
Abraços.
Obs. Quéxi significa, na lingua que meu prefeito inventou, Creche. Quem acertou me cobra depois!
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Roubo Impossível - parte 3 (desculpa gente, mas ainda não é a última)
Pura frescura. Só para deixar aquele gostinho de ansiedade, e me dar um pouco mais de tempo também para repensar o climax.
Quero agradecer uma amiga minha, Indy, por estar sempre me cobrando a continuação deste conto. Se não fosse por ela acho que esse post aqui demoraria mais um mês para sair. Beijos querida.
Roubo Impossível - Parte 3
As luzes no interior da casa de Artur estavam todas apagadas quando ele chegou do trabalho, as três da matina. Estava cansado, mas o café levava seu sono embora, junto com seu hálito. Demorou-se, como de costume, à porta, pois a maldita chave insistia em emperrar no meio da segunda volta. Depois de alguns solavancos, acompanhando de palavrões sussurrados, a fechadura cedeu.
Mesmo com toda a barulheira feita pelo oficial, nenhuma luz se acendeu no interior da residência. “Tomara que ela esteja dormindo! Se eu pegá-la na rua até essa hora de novo, acho que lhe dou uma surra.” Pensou, preocupado. Sua filha, Marcela, de uns tempos para cá tinha deixado de ser o exemplo de boa moça, respeitadora, educada, quase uma santa, para começar a sair com um “moleque” que tinha mais brincos do que todo o porta jóias da menina. E isso deixava o policial enfurecido.
Artur foi até o quarto da filha, verificar se ela estava dormindo. Mantinha os punhos fechados, com força, e os dentes cerrados, pensando no pior. “Se ela não estiver na cama, eu vou arrancar-lhe o couro quando voltar para casa. Arranco também aqueles malditos piercings daquele punk de merda. Bem que minha filha podia sair com o Antônio.” Este último pensamento passou despercebido. O policial quase grunhiu quando tocou na maçaneta do quarto da menina, mas todos seus músculos relaxaram ao girá-la e abrir a porta, constatando que sua garotinha estava sã e salva, dormindo tranquilamente.
Apesar da mente de Artur lhe dizer o contrário, Marcela já não era tão garotinha assim. Seios firmes e a cintura fina atuam como ímãs para os olhares das pessoas, tanto os apetitosos dos homens, como os invejosos das outras mulheres. E a menina, conhecendo seus dotes melhor do que ninguém, e escolhia suas roupas de modo a provocar ainda mais. Decotes fundos e calças de cós baixo inundavam seu guarda-roupa. Mas ali, debaixo das cobertas, com seu pijama conservador, a imagem que o velho Artur tinha de sua filha permanecia imaculada.
Tony chegou em casa com a barriga roncando de fome. Os refrigerantes que havia tomado na delegacia foram as únicas coisas que seu estômago viram desde o almoço. Seu relógio apitou, informando que já era uma da manhã. Seu pai e sua mãe já estavam dormindo. “Dormindo há muito tempo.” Pensou o mágico, andando nas pontas dos pés até a cozinha. As panelas da janta estavam todas sobre o fogão. “Vou ter que comer isso aqui frio mesmo, se meu pai acorda uma hora dessas posso dizer adeus ao meu couro.”
Quarenta minutos depois o mágico já estava em seu quarto, com o estômago estufado, sentado na beira da cama. A gaveta de sua escrivaninha estava aberta e várias revistas especializadas em mágica abertas pelo tapete que cobria o todo o chão do quarto. Tony estava procurando todas as matérias sobre mágicos escapistas famosos do Brasil. O garoto estava procurando apenas por desencarno de consciência, pois as probabilidades de se encontrar algo que o ajudasse a desvendar esse roubo eram quase zero.
Como esperado, nenhuma publicação lhe serviu de grande ajuda, o máximo que ele achou de diferente foi um caso de um mágico que havia falhado em uma de suas apresentações e foi vergonhosamente humilhado pelo público. Alessandro Tied era o nome artístico do mágico. Tied é a palavra em inglês que significa “amarrado”. Parece que Alessandro não conseguiu se livrar das cordas e das algemas, e em sua tentativa de sair do caixote onde estava preso, revelou um compartimento secreto, por onde ele sairia dissimuladamente, revelando seu segredo aos espectadores, que, descontentes, vaiaram e escarneceram o pobre rapaz. Tal fato ocorrera há mais de vinte anos.
Esta notícia fez um arrepio escalar a coluna de Tony, que agradeceu aos céus por nunca ter errado no palco. Abandonando as revistas, frustrado, o rapaz deitou-se em sua cama. Retirou os sapatos e as meias usando os próprios pés e recostou-se no travesseiro. Fechou os olhos, rolou de um lado, rolou para o outro, mas não conseguiu dormir. A imagem do mágico errando seu truque não saiu de sua cabeça, e o nome Alessandro pulsava em seus pensamentos como um letreiro de motel em neon azul. Finalmente, depois de mais algumas voltas pelo colchão, conseguiu dormir.
domingo, 18 de maio de 2008
Primeiro Conto de Fantasia
Então, enquanto eu termino o projeto Tony Trickman, vocês podem ler, na íntegra, o primeiro conto que eu escrevi. Se passa no bairro de Nitamu-ra, na cidade de Valkaria, em Arton, um mundo criado pelo Trio Tormenta, JM Trevisan, Marcelo Cassaro e Rogério Saladino.
Este conto era para ter sido publicado no site oficial da revista Dragon Slayer, mas infelizmente o mesmo nunca mais foi atualizado. Fazer o que né. Espero que gostem.
Xenofobia
Nitamu-ra, o grandioso bairro situado no subúrbio de Valkaria, vem precedido de uma grande tragédia. Originalmente localizado a léguas de distância do Reinado, há dez anos, seu antigo imperador dragão Tekametsu viu seu maravilhoso e místico reino ser atacado pela terrível tempestade rubra, que consumia tudo em que tocava.
Como um último esforço para salvar seu povo, o imperador transportou uma pequena área de sua cidade para os domínios de Valkaria, local onde já existia certa amizade. Hoje, Nitamu-ra ajuda sua hospedeira a crescer comercialmente e oferece ajuda também no campo de batalha. Mas o povo tamuraniano é enigmático, assim como sua cultura..
Os jovens sempre tratam forasteiros e vizinhos muito bem, mas algumas vezes é possível perceber certa exclusão e preconceito da parte dos orientais para com os ocidentais, principalmente por aqueles que viveram mais tempo
E essa desconfiança parece estar toda caindo sobre uma pessoa. Rayard Oncer, que foi obrigado a mudar para o bairro oriental para retribuir um favor à um amigo. Rayard, como vários outros habitantes do Reinado e de Arton, não é um humano. Especificamente, Oncer é um licantropo, um humano tocado por Tenebra, a deusa das Trevas e que recebeu dela um dom, habilidades bestiais, em conjunto a uma aparência feral.
Traços animalescos distinguem o rapaz no meio da multidão de olhos puxados. Suas compridas orelhas caninas e olhos redondos da cor da terra nunca o fizeram sentir vergonha em nenhum outro lugar que estivera, mas aqui, os olhares medrosos e severos fazem o pobre garoto se encolher em suas vestes, muitas vezes escondendo as garras afiadas como espadas dentro dos bolsos.
Se pudesse, o homem-besta deixaria o bairro sem pensar duas vezes, mas há um motivo muito importante para mantê-lo neste lugar aparentemente hostil. Um grande amigo, Keiharu, tamuraniano, por incrível que pareça, o salvara de um incêndio, e como agradecimento Rayard prometeu que um dia faria o mesmo, pagaria o débito salvando a vida do oriental. Desde então vem morando com seu salvador, já que nunca tivera um lar. Keiharu é um curandeiro, que aprendeu a usar ervas para fins cicatrizantes e anestésicos, porém já tem uma idade muito avançada, e seu tempo neste plano parece estar se esgotando, mas é muito feliz, pois viu em Oncer a oportunidade de manter seu conhecimento vivo, e sempre que pode passa o dia ensinando o amigo seus segredos medicinais.
-Ei Rayard, vá buscar água lá no poço para mim, por favor, preciso ferver essas plantas aqui e nossa água já acabou. - Gritou o velho, enquanto cortava em pequenos quadradinhos o talo de uma planta verde escura e mal cheirosa.
-Já vou, já vou! - Respondeu impaciente. “Por que é que eu que tenho de ir pegar água, será que ele não percebeu que os amigos dele não gostam de mim?” pensou melancólico enquanto calçava o tora, um chinelo de madeira, que deixava expostas suas grandes unhas dos pés. “Mas se eu tiver sorte posso encontrá-la novamente.” a tristeza em sua expressão deu lugar a um largo sorriso e uma fraca coloração vermelha em meio aos pelos da face.
Iwamori é o outro motivo pelo qual o licantropo ainda não abandonou sua promessa. Uma jovem oriental, de longos cabelos negros como a noite e lisos como o fluir dos rios, de pele muito branca e frágeis olhos escuros. Rayard a viu pela primeira vez quando fora buscar água na fonte que se encontra em uma pequena praça próxima a sua casa. Ela também repunha seu estoque naquele poço, e volte e meia era vista enchendo os baldes e carregando-os penosamente para sua residência.
“Hoje eu me ofereço para levar seus baldes!” Pensava sozinho, enquanto caminha pelas ruas, carregando o peso dos olhares preconceituosos em suas costas. “Mas ela também deve me odiar.”
Carregado pelos devaneios, chegou no local designado e segurando o balde pelo fundo e pela boca, passou-o pela água cristalina, depositando uma quantia considerável no recipiente. Quando se levantou para ir embora, seu coração pareceu pular para garganta, e seu estômago se contraiu de ansiedade. Lá estava ela, a personificação oriental da beleza. Iwamori vinha em sua direção, trazendo duas vasilhas vazias. O suor pintava seu rosto de paixão e desejo.
-Bom dia! - Disse a tamuraniana para a fera, com um sotaque muito forte e um sorriso, sincero aos olhos de Rayard. Aquilo o fez perder o chão, e por alguns segundos não foi capaz de dizer uma palavra sequer.
-B.. Bom dia. - finalmente a voz saiu, meio falhada e baixa. Sua face começou a esquentar devido ao rápido fluxo de sangue que a vergonha bombeou até ela. - Será que eu poderia carregar seus baldes para você? Para que não corra risco de se machucar.
-Quanta gentileza! Logo se percebe que é amigo do velho curandeiro, sempre muito prestativo. Se não for incomodo, eu adoraria que fizesse esse favor para mim. - As palavras também mal saiam, mais por dificuldade com a língua ocidental do que pela vergonha, mas mesmo assim, Oncer mal coube dentro de si. Mal a garota encheu suas vasilhas, o rapaz prontamente as agarrou e por pouco não derrubou todo o conteúdo no chão. Seus braços eram fortes como os de um minotauro e desajeitados como de uma criança.
“Ela não me odeia! E eu achando que minha sorte havia acabado”, este pensamento acompanhou-o até o fim do trajeto, junto com outros mais indiscretos, que insistiam em brotar em sua mente. Nenhum dos dois nada disse durante o trajeto. Todos os outros moradores olhavam descrentes para a menina que tinha coragem de andar perto daquela coisa, e parecia que Iwamori sentiu o mal-estar que afligia o homem-fera, pois durante o tempo que andara ao seu lado, baixou a cabeça e caminhou olhando para os próprios pés. Rayard em compensação se sentiu tão bem consigo mesmo, que cumprimentava a todos que encontrava na rua, mesmo não obtendo nem mesmo um aceno em resposta.
As construções dali eram como seu povo, exóticas e místicas. Grandes prédios de forma triangular preenchiam as redondezas, com estranhas estátuas e enfeitas nas sacadas e fachadas, e a residência da mulher não era diferente. Uma exuberante porta de madeira, com letras irreconhecíveis para Oncer, separava seu interior do resto da rua, e um pequeno jardim brilhava colorido junto a entrada, como um tapete colorido de boas vindas.
-Muito obrigado... hum... como é o seu nome senhor?
-Rayard, Rayard Oncer. - Disse orgulhoso, estufando o peito para frente, tentando passar a impressão de ser forte. Esforço desnecessário, pois a metros de distancia, mesmo estando encolhido, seus músculos se fazem perceptíveis.
-Prazer em conhecê-lo senhor Oncer. Eu me chamo Iwa...
-IWAMORI! - Berrou uma voz feminina do interior do recinto, propositalmente na língua dos ocidentais. - JÁ PARA DENTRO, ONDE JÁ SE VIU FICAR NA RUA SOZINHA COM UM... COM UM... UM HOMEM NA FRENTE DA CASA DE SEU PAI!?
-Desculpe-me senhor, preciso ir. – Apanhou as jarras e entrou como um vulto para dentro de casa, deixando o licantropo mudo e imóvel do outro lado da porta.
Rayard entrou assobiando e dançando em sua casa, fazendo o chinelo estalar no tapete de palha.
-A encontrou de novo garoto?
-Melhor que isso velhote. - Disse ajoelhando-se na outra extremidade da mesa. - Eu carreguei os baldes dela até sua casa!
-Hahaha! Eu sempre achei que você fosse um homem-lobo, e não homem-burro-de-carga.
-Boa tentativa, mas hoje nada pode me fazer perder o bom humor, velhote!
-Foi por isso então que você demorou. Sorte sua que não era grave o estado do senhor Makoto, senão o coitado já estaria sendo cremado agora.
-Desculpe-me. Mas ela me tratou tão bem. Completamente diferente dos outros. Tratou-me do mesmo jeito que o senhor me trata, tirando as brincadeiras sem graça.
-Hahaha! Não se iluda garoto, a cabeça do meu povo não muda tão facilmente. Confie em mim, eu sei do que estou falando. Eu mesmo tive dificuldades no começo quando te trouxe para cá. Fique sempre alerta, entendeu?
-Ta ta, pode deixar. - Mas estas palavras se perderam rapidamente nas lembranças do rapaz, dando lugar ao “bom dia” e ao “muito obrigado” transformou em paraíso o inferno que era morar naquele lugar.
Agora Rayard não precisava de nenhum motivo para visitar a fonte, o que começou a fazer várias vezes por dia, sempre na esperança de poder ver, e quem sabe trocar mais algumas palavras, com sua amada. Demorou cerca de um mês para que ela voltasse a buscar água naquele lugar. Segundo ela, que agora conversava sempre que podia com o licantropo, sua mãe havia ficado uma fera, (“ops, desculpe o comentário” disse envergonhada) e a proibira de sair, mas que agora já estava tudo bem, contanto que ela não voltasse mais a ver o homem-lobo.
-Mas então por que é que você vem falar comigo? Não tem medo de sua mãe ou seu pai?
-Tenho, tenho sim. Mas sua companhia me agrada. - Um sorriso surgiu na boca vermelha da oriental, e Oncer a imitou. - Não sei por que todos daqui não te tratam bem como tratam os elfos, ou os magos ou qualquer outro forasteiro. Você é tão gentil quanto eles, se não for mais.
-Hehe! – a boca de Rayard mal abria, e suas bochechas ardiam de vergonha – Mas você me trata bem, e o velhote, quer dizer, o Keiharu, também. Isso para mim já é o suficiente. - Baixou a cabeça e olhou para os joelhos, tentando esconder a vermelhidão da face.
Os dois estavam sentados na beira do poço, e Iwamori chegou um palmo mais perto do rapaz, encostando sua perna na dele. O coração do licantropo tornou a saltar para garganta, mas dessa vez parecia estar prestes a sair por sua boca, quando sentiu os dedos frágeis e sedosos da garota tocar-lha o queixo. Ela mirou a cabeça dele para cima novamente, e com um gesto lento e caloroso, tocou os lábios do rapaz com os seus próprios.
Quanto tempo aquele paraíso durou o homem-lobo não sabia, mas aquela sensação de bem estar, misturada com a surpresa e o rápido palpitar que os corações produziam em sincronia pareceu congelar o tempo. Nenhum dos gritos de surpresa vindos dos moradores que presenciaram a cena chegou até os ouvidos do rapaz, sua cabeça parecia desligada para todos os acontecimentos externos. Se Valkaria fosse atacada de uma hora para outra pela Tormenta, para ele estava tudo ótimo, naquele momento, nada mais importava.
Finalmente se separaram, sorte da garota, pois se o beijo durasse mais 1 segundo sequer, os instintos de Rayard tomariam conta de sua consciência, e sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Ele mal conseguia conter as próprias mãos, e no momento em que elas estavam prontas para viajar pelo corpo sagrado de Iwamori, ela se afastou. Seu rosto muito vermelho apresentava as pequenas gotas de suor que tanto atraíam o licantropo.
-O que foi? Eu fiz algo de errado? - Oncer ficara confuso, mas a pressão em seu estômago e no baixo ventre não havia passado..
-Não, claro que não querido. A culpa é minha. Eu não podia ter feito isso na frente das outras pessoas, desculpe. - com estas palavras a garota se levantou rápido como uma flecha e correu em direção a sua casa.
Sozinho novamente, a fera levantou-se calmamente, ainda com a lembrança do toque suave e doce da moça que por alguns instantes, que pareceram a eternidade, se tornara um corpo e uma alma com ele. Caminhou distraído até a casa de seu amigo e mentor, ainda não prestando atenção às pessoas que lhe cercavam. Perdido nos desejos que invadiam sua mente quando recordava o beijo, chegou em casa.
-E ai garoto, a encontrou hoje? Garoto? - Rayard não respondeu, e foi direto para o banheiro tomar um banho, esquecendo até de se despir, devido ao turbilhão de pensamentos no seu cérebro. - O que será que aconteceu? Espero que não tenha se magoado.
Apenas na metade do banho Oncer percebeu que ainda estava vestido e, rindo de si mesmo, ficou nu e entrou na água novamente, agora cantando alguma música irreconhecível na sua voz, pelo menos isso deixara Keiharu tranqüilo. Somente depois de meia hora o homem-fera, ainda muito contente e cantante, se juntou ao velho curandeiro na sala.
-Por Lin-wu, ou qualquer outro deus que você cultue, pare de cantar! Tenha dó dos meus velhos e frágeis ouvidos.
-Ah velhote, hoje é um dia especial, e nem suas brincadeiras vão acabar com meu bom humor!
-Lá vem você de novo com esse papo. O que aconteceu para você ficar assim então, recebeu uma medalha de “Nitamuraniano do ano”?
-Hahaha! Melhor que isso seu velho sem graça. Hoje um dos meus mais profundos desejos foi atendido, talvez graças ao seu deus lagartão. Se for, agradeça a ele por mim.
-“Deus lagartão”, espero que você saiba o que está dizendo meu rapaz, para que não se arrependa quando for castigado. - Mas nem este aviso foi suficiente para remover o largo sorriso presente no rosto do garoto.
Já era noite quando os dois se sentaram para jantar, e o local estava fracamente iluminado pelas tímidas chamas das velas nas pontas dos candelabros. Toda comida que tocava os lábios de Rayard o faziam lembrar o gosto e a satisfação que sentira àquela tarde. Parecia uma noite perfeita, mas não era.
Um pouco antes de acabar seu prato, algumas batidas fracas, porém constantes, na porta, o fez largar um resto de comida para ir atender o convidado. “Quem será que esta fazendo uma visita nesse horário” pensou consigo mesmo esquecendo por um momento que o dono da casa é o curandeiro da região, e que as pessoas não marcam hora para se machucarem. E não deu outra, do lado de fora estava uma pessoa de aparência espantosa, machucados cobriam todo o resto e os braços, grandes manchas vermelhas se faziam visíveis ao longo da pele e das vestes.
-Iwamori!? O que aconteceu com você!? Entre por favor, já vou chamar o velhote, sente-se aqui venha. - O desespero conseguiu varrer as boas lembranças por alguns minutos da cabeça de Oncer, que parecia não saber o que fazer, como se tivesse visto o pior de todos os seus pesadelos bem a sua frente e sem poder contar com o despertar para ajudá-lo.
-B.. boa noite Rayard-san. Desculpe o incômodo, mas eu precisa vir ver o senhor Keiharu, eu não sinto direito meus braços. - disse a garota com uma expressão que, na cabeça dela, transmitia calma, mas serviu apenas para preocupar ainda mais o pobre homem-lobo.
-Não faça mais esforço tudo bem. Você não tem que se desculpar de nada, pelo contrario, fez muito bem em ter vindo aqui o mais depressa possível. EI SEU VELHO GAGÁ VEM AQUI DEPRESSA, NÃO PERCEBEU QUE O SENHOR TEM UMA PACIENTE!
-Para de gritar no ouvido da moça seu garoto mal educado. Não se preocupe, eu trouxe aqui o material para fazermos os curativos. - Keiharu depositou a bacia com água no chão, ao lado das gazes e algumas ervas.
-Boa noite Keiharu-sama, desculpe incomoda-lo tão tarde.
-Não se preocupe com isso, estou acostumado já. Venha cá, deixe-me limpar essas feridas.
Por algum tempo o velho limpou os machucados e passou uma mistura feita de ervas nas contusões, aliviando a dor e acelerando a cicatrização. Os braços e o pescoço da mulher ficaram cobertos de curativos, mas sua beleza ainda era incomensurável aos olhos da fera, que ficara o tempo todo ao lado do ancião, ajudando-lhe sempre que preciso.
-Tem mais algum lugar ferido ou que esteja doendo?
-Sim... mas, mas eu tenho vergonha. - A face da oriental ficara muito vermelha, a ponto de a mudança ser perceptível até mesmo com a baixa iluminação provinda das velas.
-Não precisa ter vergonha de mim querida, já sou muito velho e não ligo para esse tipo de coisa. - mentiu o curandeiro. O estômago de Rayard se contorcera de ciúmes por um instante.
-Minhas pernas... minhas pernas doem. Mas não estão machucadas.
-Entendo. Então apenas uma massagem relaxante com um pouco deste óleo de ervas será o sufi...
-Então deixa que eu faço velhote. Ta na hora de gente idosa ir dormir. Vai, vai, me da licença, eu sempre fui melhor massageador que você. Vai dormir vai.
Mesmo que a contragosto, Keiharu não se opôs ao garoto, levantou-se calmamente e caminhou devagar até seu quarto, olhando com o canto do olho para a garota, na esperança de vê-la retirando o kimono para receber seu tratamento. Mas foi em vão, ainda demorou alguns minutos para que ela se despisse, mesmo estando sozinha com Rayard.
-Não se preocupe, eu realmente sou bom nisso. - gabou-se dando um sorriso tranqüilo para a paciente. - Mas eu pedi que o velho saísse porque eu gostaria de te fazer algumas perguntas. Quem fez isso com você Iwamori?
-M... meu pai. - respondeu a garota depois de alguns segundos, com a voz muito fraca, quase inaudível.
-Foi por minha causa não foi? Por causa do nosso beijo de hoje, não é?
-Não foi culpa sua Rayard-san, fui eu quem tomou a iniciativa, eu já estava ciente das conseqüências, e não me arrependo, de que outra forma eu estaria aqui agora, a sós contigo?
Naquele momento, todo o desespero e arrependimento se esvaíram dos pensamentos do rapaz, dando lugar a incerteza e ao desejo. Sua mente estava confusa, por um lado não sabia se continuava a massagem e não fazia nada que comprometesse a saúde de sua amanda, e por outro, seus instintos insistiam para que ele se desfizesse de suas roupas também, e que se juntasse àquela perfeita criatura, mais bela até mesmo que a lua cheia refletida na margem calma de um lago negro salpicado de pequenas estrelas. Em poucos segundos os instintos ganharam, e naquela madrugada, nem o sono nem o velho curandeiro ousaram incomodar os dois.
O licantropo só conseguiu dormir quando Azgher iluminava vagarosamente o horizonte, e acordou do melhor sono de sua vida poucas horas depois, com barulho de vários passos e gritaria, vindos da porta de entrada. Iwamori não estava mais ao seu lado.
' -Rayard Oncer, abra a porta, é a guarda de Nitamu-ra. Vamos, abram a porta.
Não entendendo o motivo de tanta balburdia, o rapaz levantou-se desengonçadamente enquanto se vestia e calçava o tora. Ainda sonolento e com os olhos semi-cerrados abriu a porta, e deu de cara com 4 homens, vestidos com armaduras samurais, com máscaras horrendas escondendo suas faces. Iwamori estava ao lado de um deles.
-Que que foi? Qual o motivo dessa gritaria toda? - perguntou desconfiado.
-Você esta preso, Rayard Oncer, por macular Iwamori Ookuchi, prometida em casamento ao senhor Ichihira Kamioo, filho do Alto Sacerdote, Ichihira Tozen.
-QUE? - o licantropo acabara de descobrir que ainda não havia sonhado seu pior pesadelo, e que o mesmo acabara de se materializar na sua frente. - Prometida?
-Venha conosco, e não ofereça resistência, assim não sairá ferido.
Mas o acusado já não ouvia a voz do oficial, sua mente estava sendo bombardeada de pensamentos culposos, misturados com um crescente ódio que apertava seu peito para dentro. “Prometida, e não me disse nada. Como eu fui ingênuo, desde o começo o plano era esse, me prejudicar. COMO EU FUI BURRO!”
-Eu não vou. - disse estufando o peito, fazendo parecer aos olhos dos guardas que duplicara seu tamanho, fazendo dois deles darem um passo para trás. - Vou abandonar seu precioso vilarejo agora, não tenho motivos mais para permanecer aqui. - disse com ar zombeteiro, pedindo desculpas mentalmente para Keiharu, pois agora não pretendia esperar naquele lugar para cumprir sua promessa.
-Quem foi que te deu o direito de escolher o que fazer? - Ergueu a voz o que aprecia ser o líder dos samurais, trazendo de volta a confiança aos seus subordinados. - Tu cometeste um crime em nossos domínios, se aproveitando a força da senhorita Iwamori. Então...
-A força? Quem disse isso? - perguntou, sem esconder sua raiva, nem suas presas.
-A própria Iwamori deu queixa, e mostrou os machucados que você, em sua loucura, os fez.
Aquelas palavras fizeram Rayard perder o chão, descrente. Olhou nos olhos da antiga amada, que por usa vez, mirava o chão, com a face tão vermelha quanto na noite passada. Oncer não sabia o que fazer novamente. Pensamentos divergentes invadiram mais uma vez sua cabeça. E mais uma vez seus instintos falaram mais alto.
Com apenas um salto, Rayard foi capaz de acertar o comandante da operação, derrubando-o no chão já sem a metade esquerda da face, que estava agora destroçada dentro da boca do licantropo. Com a mandíbula e o pescoço sujos de sangue, se levantou, olhando furioso, bufando e rosnando para os outros três soldados, e para a garota, que se encolhera atrás da armadura de um dos oficiais.
As espadas ressoaram em uníssono de suas bainhas, porém, devido ao fato de seu capitão jazer imóvel aos seus pés, ninguém ousava tomar a iniciativa de atacar a fera. No mesmo instante, Oncer disparou em corrida pela rua, não antes de arrancar, literalmente, o braço de outro samurai que estava na sua frente. Uma fração de segundo depois, os dois guardas que sobraram iniciaram a perseguição.
Não demorou muito, o homem-lobo chegara à pequena fonte, o ponto inicial do plano para sua decadência. Ali, escorados na borda do posso, estavam mais quatro guardas, inicialmente a paisana, mas, ao verem o sangue que escorria da boca da fera, desembainharam suas espadas e posicionaram-se para um combate. Logo em seu encalço, vinham os outros dois executores, seguidos pela bela oriental.
No instante seguinte, os guardas cercaram o acusado por todos os lados, impossibilitando uma futura tentativa de fuga. A presa olhava em volta freneticamente, analisando todas as ações possíveis, e fugir já não era mais algo que ele queria, seu instinto pedia por sangue, e não adiante discutir com o instinto.
-Não se mexa. Não queremos que mais ninguém se machu... - com um pulo rápido para trás, o oficial escapou de ter sua garganta degolada pelo forte golpe de licantropo, que não estava nem um pouco a fim de conversa.
Percebendo que palavras já não resolveriam mais, dois dos guardas avançaram, com a espada em riste, na direção da fera, que com movimentos grosseiros, fortes rápidos, se desviou do primeiro golpe, rasgando o braço do espadachim, e levou o segundo apenas de raspão, fazendo uma fina linha de sangue escorrer através dos pelos de suas costas.
A investida deu confiança aos outros samurais, que atacaram praticamente ao mesmo tempo, tão rápidos quanto a presa, que, com muita dificuldade, saiu do meio da saraivada de lâminas, levando consigo uma perna entre os dentes, e mais alguns cortes nas costas e outros nos braços.
O número de oficiais fora reduzido a cinco, estando dois com os braços levemente cortados, e um outro com sangue escorrendo de seu supercílio direito, enquanto Rayard tinha apenas alguns cortes superficiais, que pareciam não estar fazendo a menor diferença. Não mais tão confiantes os guardas atacaram mais uma vez, alternando agora o número de combatentes, tática usada para fazer com que o inimigo gaste mais energia, ficando cansado mais rápido, enquanto eles guardam um pouco de suas próprias reservas de fôlego.
A nova investida pareceu surtir efeito, após esquivar-se dos três primeiros cortes, levando mais um samurai a invalidez, os outros dois não puderam ser totalmente evitados, fazendo com que as lâminas perfurassem fundo a carne do licantropo, que sentiu as pernas falharem por um segundo, e a visão se tornar levemente turva. Mas sua fúria era tão grande que ainda assim conseguiu lançar-se em direção aos atacantes. Após varias mordidas e fortes ataques desferidos com suas garras, que assobiavam ao vento devido a grande velocidade, só restara mais um samurai inteiro, porém, Rayard perdera a mão esquerda e havia vários cortes profundos agora, espalhados por todo o corpo, e a falta de sangue começara a surtir efeito.
Muito tonto devido aos ferimentos, Oncer ainda tentou uma última vez ferir seu último oponente, mas caíra de joelhos antes de dar o segundo passo, mas o guarda não se moveu. Não porque não quis, ele já mal se agüentava em pé vestindo sua armadura, que estava com o triplo do peso normal, e também despencou no chão.
Ainda ajoelhado, Rayard Oncer viu que Iwamori vinha correndo em sua direção, e seu ódio deu resquícios de que iria voltar, mas nem isso era mais possível agora, só lhe restou então, observar.
-Desculpe-me, tinha de ser assim.
-Iwamori – as palavras saiam em meio ao sangue em sua garganta. Juntou suas últimas forças para poder fazer a pergunta que latejava em sua cabeça desde que começou a morar com Keiharu, - por que eu? Com tanta gente de fora que passa por aqui, por que o ressentimento de vocês se concentrou em mim?