terça-feira, 7 de outubro de 2008
A coisa ta FEIA!
A coisa ta feia aqui na minha cidade também. Essas eleições foram catastróficas!
No blog eu não posso falar tudo o que eu acho do infeliz que foi eleito aqui, porque pode dar muita confusão para o meu lado.
Mas analisem vocês a situação: o cara fala Quéxi, vocês sabem o que é isso? Ele disse que irira contruir várias dessas.
Dou uma bala pra quem acertar.
E não são só os erros de português do infeliz que me deixam putoo! Muita gente fala errado.. até eu.
Porém, uma pessoa que fala que quer construir postos de saúde 24 horas que "vão funcionar inclusive à noite" tinha que voltar urgentemente para a escola! PELO AMOR DE DEUS!
E essa figura foi eleita! Tem como isso?
Mas tudo bem.. eu falei tudo isso pra tentar escapar das inevitaveis desculpas que devo pra quem quer ler o final do "Roubo Impossível". Contudo, aqui estou eu, pedindo humildemente que me desculpem. Eu prometi terminar o conto em "algumas semanas", o que não aconteceu. Porém eu não fiquei parado nesse meio tempo. Escrevi um conto sobre lobisomens que está participando de uma promoção. Caso eu seja o vencedor, além de ganhar um livro sobre o tema, meu conto será publicado numa E-zine.
Eu já voltei a escrever o conto do Tony, mas não vou prometer nada por enquanto, para não passar vergonha denovo.
Se tudo der certo... daqui uns "tempos" o final sai.
Até lá, vou tentar amenizar minha indgnação com o povo tosco da minha cidade.
Abraços.
Obs. Quéxi significa, na lingua que meu prefeito inventou, Creche. Quem acertou me cobra depois!
segunda-feira, 7 de julho de 2008
Roubo Impossível - parte 3 (desculpa gente, mas ainda não é a última)
Pura frescura. Só para deixar aquele gostinho de ansiedade, e me dar um pouco mais de tempo também para repensar o climax.
Quero agradecer uma amiga minha, Indy, por estar sempre me cobrando a continuação deste conto. Se não fosse por ela acho que esse post aqui demoraria mais um mês para sair. Beijos querida.
Roubo Impossível - Parte 3
As luzes no interior da casa de Artur estavam todas apagadas quando ele chegou do trabalho, as três da matina. Estava cansado, mas o café levava seu sono embora, junto com seu hálito. Demorou-se, como de costume, à porta, pois a maldita chave insistia em emperrar no meio da segunda volta. Depois de alguns solavancos, acompanhando de palavrões sussurrados, a fechadura cedeu.
Mesmo com toda a barulheira feita pelo oficial, nenhuma luz se acendeu no interior da residência. “Tomara que ela esteja dormindo! Se eu pegá-la na rua até essa hora de novo, acho que lhe dou uma surra.” Pensou, preocupado. Sua filha, Marcela, de uns tempos para cá tinha deixado de ser o exemplo de boa moça, respeitadora, educada, quase uma santa, para começar a sair com um “moleque” que tinha mais brincos do que todo o porta jóias da menina. E isso deixava o policial enfurecido.
Artur foi até o quarto da filha, verificar se ela estava dormindo. Mantinha os punhos fechados, com força, e os dentes cerrados, pensando no pior. “Se ela não estiver na cama, eu vou arrancar-lhe o couro quando voltar para casa. Arranco também aqueles malditos piercings daquele punk de merda. Bem que minha filha podia sair com o Antônio.” Este último pensamento passou despercebido. O policial quase grunhiu quando tocou na maçaneta do quarto da menina, mas todos seus músculos relaxaram ao girá-la e abrir a porta, constatando que sua garotinha estava sã e salva, dormindo tranquilamente.
Apesar da mente de Artur lhe dizer o contrário, Marcela já não era tão garotinha assim. Seios firmes e a cintura fina atuam como ímãs para os olhares das pessoas, tanto os apetitosos dos homens, como os invejosos das outras mulheres. E a menina, conhecendo seus dotes melhor do que ninguém, e escolhia suas roupas de modo a provocar ainda mais. Decotes fundos e calças de cós baixo inundavam seu guarda-roupa. Mas ali, debaixo das cobertas, com seu pijama conservador, a imagem que o velho Artur tinha de sua filha permanecia imaculada.
Tony chegou em casa com a barriga roncando de fome. Os refrigerantes que havia tomado na delegacia foram as únicas coisas que seu estômago viram desde o almoço. Seu relógio apitou, informando que já era uma da manhã. Seu pai e sua mãe já estavam dormindo. “Dormindo há muito tempo.” Pensou o mágico, andando nas pontas dos pés até a cozinha. As panelas da janta estavam todas sobre o fogão. “Vou ter que comer isso aqui frio mesmo, se meu pai acorda uma hora dessas posso dizer adeus ao meu couro.”
Quarenta minutos depois o mágico já estava em seu quarto, com o estômago estufado, sentado na beira da cama. A gaveta de sua escrivaninha estava aberta e várias revistas especializadas em mágica abertas pelo tapete que cobria o todo o chão do quarto. Tony estava procurando todas as matérias sobre mágicos escapistas famosos do Brasil. O garoto estava procurando apenas por desencarno de consciência, pois as probabilidades de se encontrar algo que o ajudasse a desvendar esse roubo eram quase zero.
Como esperado, nenhuma publicação lhe serviu de grande ajuda, o máximo que ele achou de diferente foi um caso de um mágico que havia falhado em uma de suas apresentações e foi vergonhosamente humilhado pelo público. Alessandro Tied era o nome artístico do mágico. Tied é a palavra em inglês que significa “amarrado”. Parece que Alessandro não conseguiu se livrar das cordas e das algemas, e em sua tentativa de sair do caixote onde estava preso, revelou um compartimento secreto, por onde ele sairia dissimuladamente, revelando seu segredo aos espectadores, que, descontentes, vaiaram e escarneceram o pobre rapaz. Tal fato ocorrera há mais de vinte anos.
Esta notícia fez um arrepio escalar a coluna de Tony, que agradeceu aos céus por nunca ter errado no palco. Abandonando as revistas, frustrado, o rapaz deitou-se em sua cama. Retirou os sapatos e as meias usando os próprios pés e recostou-se no travesseiro. Fechou os olhos, rolou de um lado, rolou para o outro, mas não conseguiu dormir. A imagem do mágico errando seu truque não saiu de sua cabeça, e o nome Alessandro pulsava em seus pensamentos como um letreiro de motel em neon azul. Finalmente, depois de mais algumas voltas pelo colchão, conseguiu dormir.
domingo, 18 de maio de 2008
Primeiro Conto de Fantasia
Então, enquanto eu termino o projeto Tony Trickman, vocês podem ler, na íntegra, o primeiro conto que eu escrevi. Se passa no bairro de Nitamu-ra, na cidade de Valkaria, em Arton, um mundo criado pelo Trio Tormenta, JM Trevisan, Marcelo Cassaro e Rogério Saladino.
Este conto era para ter sido publicado no site oficial da revista Dragon Slayer, mas infelizmente o mesmo nunca mais foi atualizado. Fazer o que né. Espero que gostem.
Xenofobia
Nitamu-ra, o grandioso bairro situado no subúrbio de Valkaria, vem precedido de uma grande tragédia. Originalmente localizado a léguas de distância do Reinado, há dez anos, seu antigo imperador dragão Tekametsu viu seu maravilhoso e místico reino ser atacado pela terrível tempestade rubra, que consumia tudo em que tocava.
Como um último esforço para salvar seu povo, o imperador transportou uma pequena área de sua cidade para os domínios de Valkaria, local onde já existia certa amizade. Hoje, Nitamu-ra ajuda sua hospedeira a crescer comercialmente e oferece ajuda também no campo de batalha. Mas o povo tamuraniano é enigmático, assim como sua cultura..
Os jovens sempre tratam forasteiros e vizinhos muito bem, mas algumas vezes é possível perceber certa exclusão e preconceito da parte dos orientais para com os ocidentais, principalmente por aqueles que viveram mais tempo
E essa desconfiança parece estar toda caindo sobre uma pessoa. Rayard Oncer, que foi obrigado a mudar para o bairro oriental para retribuir um favor à um amigo. Rayard, como vários outros habitantes do Reinado e de Arton, não é um humano. Especificamente, Oncer é um licantropo, um humano tocado por Tenebra, a deusa das Trevas e que recebeu dela um dom, habilidades bestiais, em conjunto a uma aparência feral.
Traços animalescos distinguem o rapaz no meio da multidão de olhos puxados. Suas compridas orelhas caninas e olhos redondos da cor da terra nunca o fizeram sentir vergonha em nenhum outro lugar que estivera, mas aqui, os olhares medrosos e severos fazem o pobre garoto se encolher em suas vestes, muitas vezes escondendo as garras afiadas como espadas dentro dos bolsos.
Se pudesse, o homem-besta deixaria o bairro sem pensar duas vezes, mas há um motivo muito importante para mantê-lo neste lugar aparentemente hostil. Um grande amigo, Keiharu, tamuraniano, por incrível que pareça, o salvara de um incêndio, e como agradecimento Rayard prometeu que um dia faria o mesmo, pagaria o débito salvando a vida do oriental. Desde então vem morando com seu salvador, já que nunca tivera um lar. Keiharu é um curandeiro, que aprendeu a usar ervas para fins cicatrizantes e anestésicos, porém já tem uma idade muito avançada, e seu tempo neste plano parece estar se esgotando, mas é muito feliz, pois viu em Oncer a oportunidade de manter seu conhecimento vivo, e sempre que pode passa o dia ensinando o amigo seus segredos medicinais.
-Ei Rayard, vá buscar água lá no poço para mim, por favor, preciso ferver essas plantas aqui e nossa água já acabou. - Gritou o velho, enquanto cortava em pequenos quadradinhos o talo de uma planta verde escura e mal cheirosa.
-Já vou, já vou! - Respondeu impaciente. “Por que é que eu que tenho de ir pegar água, será que ele não percebeu que os amigos dele não gostam de mim?” pensou melancólico enquanto calçava o tora, um chinelo de madeira, que deixava expostas suas grandes unhas dos pés. “Mas se eu tiver sorte posso encontrá-la novamente.” a tristeza em sua expressão deu lugar a um largo sorriso e uma fraca coloração vermelha em meio aos pelos da face.
Iwamori é o outro motivo pelo qual o licantropo ainda não abandonou sua promessa. Uma jovem oriental, de longos cabelos negros como a noite e lisos como o fluir dos rios, de pele muito branca e frágeis olhos escuros. Rayard a viu pela primeira vez quando fora buscar água na fonte que se encontra em uma pequena praça próxima a sua casa. Ela também repunha seu estoque naquele poço, e volte e meia era vista enchendo os baldes e carregando-os penosamente para sua residência.
“Hoje eu me ofereço para levar seus baldes!” Pensava sozinho, enquanto caminha pelas ruas, carregando o peso dos olhares preconceituosos em suas costas. “Mas ela também deve me odiar.”
Carregado pelos devaneios, chegou no local designado e segurando o balde pelo fundo e pela boca, passou-o pela água cristalina, depositando uma quantia considerável no recipiente. Quando se levantou para ir embora, seu coração pareceu pular para garganta, e seu estômago se contraiu de ansiedade. Lá estava ela, a personificação oriental da beleza. Iwamori vinha em sua direção, trazendo duas vasilhas vazias. O suor pintava seu rosto de paixão e desejo.
-Bom dia! - Disse a tamuraniana para a fera, com um sotaque muito forte e um sorriso, sincero aos olhos de Rayard. Aquilo o fez perder o chão, e por alguns segundos não foi capaz de dizer uma palavra sequer.
-B.. Bom dia. - finalmente a voz saiu, meio falhada e baixa. Sua face começou a esquentar devido ao rápido fluxo de sangue que a vergonha bombeou até ela. - Será que eu poderia carregar seus baldes para você? Para que não corra risco de se machucar.
-Quanta gentileza! Logo se percebe que é amigo do velho curandeiro, sempre muito prestativo. Se não for incomodo, eu adoraria que fizesse esse favor para mim. - As palavras também mal saiam, mais por dificuldade com a língua ocidental do que pela vergonha, mas mesmo assim, Oncer mal coube dentro de si. Mal a garota encheu suas vasilhas, o rapaz prontamente as agarrou e por pouco não derrubou todo o conteúdo no chão. Seus braços eram fortes como os de um minotauro e desajeitados como de uma criança.
“Ela não me odeia! E eu achando que minha sorte havia acabado”, este pensamento acompanhou-o até o fim do trajeto, junto com outros mais indiscretos, que insistiam em brotar em sua mente. Nenhum dos dois nada disse durante o trajeto. Todos os outros moradores olhavam descrentes para a menina que tinha coragem de andar perto daquela coisa, e parecia que Iwamori sentiu o mal-estar que afligia o homem-fera, pois durante o tempo que andara ao seu lado, baixou a cabeça e caminhou olhando para os próprios pés. Rayard em compensação se sentiu tão bem consigo mesmo, que cumprimentava a todos que encontrava na rua, mesmo não obtendo nem mesmo um aceno em resposta.
As construções dali eram como seu povo, exóticas e místicas. Grandes prédios de forma triangular preenchiam as redondezas, com estranhas estátuas e enfeitas nas sacadas e fachadas, e a residência da mulher não era diferente. Uma exuberante porta de madeira, com letras irreconhecíveis para Oncer, separava seu interior do resto da rua, e um pequeno jardim brilhava colorido junto a entrada, como um tapete colorido de boas vindas.
-Muito obrigado... hum... como é o seu nome senhor?
-Rayard, Rayard Oncer. - Disse orgulhoso, estufando o peito para frente, tentando passar a impressão de ser forte. Esforço desnecessário, pois a metros de distancia, mesmo estando encolhido, seus músculos se fazem perceptíveis.
-Prazer em conhecê-lo senhor Oncer. Eu me chamo Iwa...
-IWAMORI! - Berrou uma voz feminina do interior do recinto, propositalmente na língua dos ocidentais. - JÁ PARA DENTRO, ONDE JÁ SE VIU FICAR NA RUA SOZINHA COM UM... COM UM... UM HOMEM NA FRENTE DA CASA DE SEU PAI!?
-Desculpe-me senhor, preciso ir. – Apanhou as jarras e entrou como um vulto para dentro de casa, deixando o licantropo mudo e imóvel do outro lado da porta.
Rayard entrou assobiando e dançando em sua casa, fazendo o chinelo estalar no tapete de palha.
-A encontrou de novo garoto?
-Melhor que isso velhote. - Disse ajoelhando-se na outra extremidade da mesa. - Eu carreguei os baldes dela até sua casa!
-Hahaha! Eu sempre achei que você fosse um homem-lobo, e não homem-burro-de-carga.
-Boa tentativa, mas hoje nada pode me fazer perder o bom humor, velhote!
-Foi por isso então que você demorou. Sorte sua que não era grave o estado do senhor Makoto, senão o coitado já estaria sendo cremado agora.
-Desculpe-me. Mas ela me tratou tão bem. Completamente diferente dos outros. Tratou-me do mesmo jeito que o senhor me trata, tirando as brincadeiras sem graça.
-Hahaha! Não se iluda garoto, a cabeça do meu povo não muda tão facilmente. Confie em mim, eu sei do que estou falando. Eu mesmo tive dificuldades no começo quando te trouxe para cá. Fique sempre alerta, entendeu?
-Ta ta, pode deixar. - Mas estas palavras se perderam rapidamente nas lembranças do rapaz, dando lugar ao “bom dia” e ao “muito obrigado” transformou em paraíso o inferno que era morar naquele lugar.
Agora Rayard não precisava de nenhum motivo para visitar a fonte, o que começou a fazer várias vezes por dia, sempre na esperança de poder ver, e quem sabe trocar mais algumas palavras, com sua amada. Demorou cerca de um mês para que ela voltasse a buscar água naquele lugar. Segundo ela, que agora conversava sempre que podia com o licantropo, sua mãe havia ficado uma fera, (“ops, desculpe o comentário” disse envergonhada) e a proibira de sair, mas que agora já estava tudo bem, contanto que ela não voltasse mais a ver o homem-lobo.
-Mas então por que é que você vem falar comigo? Não tem medo de sua mãe ou seu pai?
-Tenho, tenho sim. Mas sua companhia me agrada. - Um sorriso surgiu na boca vermelha da oriental, e Oncer a imitou. - Não sei por que todos daqui não te tratam bem como tratam os elfos, ou os magos ou qualquer outro forasteiro. Você é tão gentil quanto eles, se não for mais.
-Hehe! – a boca de Rayard mal abria, e suas bochechas ardiam de vergonha – Mas você me trata bem, e o velhote, quer dizer, o Keiharu, também. Isso para mim já é o suficiente. - Baixou a cabeça e olhou para os joelhos, tentando esconder a vermelhidão da face.
Os dois estavam sentados na beira do poço, e Iwamori chegou um palmo mais perto do rapaz, encostando sua perna na dele. O coração do licantropo tornou a saltar para garganta, mas dessa vez parecia estar prestes a sair por sua boca, quando sentiu os dedos frágeis e sedosos da garota tocar-lha o queixo. Ela mirou a cabeça dele para cima novamente, e com um gesto lento e caloroso, tocou os lábios do rapaz com os seus próprios.
Quanto tempo aquele paraíso durou o homem-lobo não sabia, mas aquela sensação de bem estar, misturada com a surpresa e o rápido palpitar que os corações produziam em sincronia pareceu congelar o tempo. Nenhum dos gritos de surpresa vindos dos moradores que presenciaram a cena chegou até os ouvidos do rapaz, sua cabeça parecia desligada para todos os acontecimentos externos. Se Valkaria fosse atacada de uma hora para outra pela Tormenta, para ele estava tudo ótimo, naquele momento, nada mais importava.
Finalmente se separaram, sorte da garota, pois se o beijo durasse mais 1 segundo sequer, os instintos de Rayard tomariam conta de sua consciência, e sabe-se lá o que poderia ter acontecido. Ele mal conseguia conter as próprias mãos, e no momento em que elas estavam prontas para viajar pelo corpo sagrado de Iwamori, ela se afastou. Seu rosto muito vermelho apresentava as pequenas gotas de suor que tanto atraíam o licantropo.
-O que foi? Eu fiz algo de errado? - Oncer ficara confuso, mas a pressão em seu estômago e no baixo ventre não havia passado..
-Não, claro que não querido. A culpa é minha. Eu não podia ter feito isso na frente das outras pessoas, desculpe. - com estas palavras a garota se levantou rápido como uma flecha e correu em direção a sua casa.
Sozinho novamente, a fera levantou-se calmamente, ainda com a lembrança do toque suave e doce da moça que por alguns instantes, que pareceram a eternidade, se tornara um corpo e uma alma com ele. Caminhou distraído até a casa de seu amigo e mentor, ainda não prestando atenção às pessoas que lhe cercavam. Perdido nos desejos que invadiam sua mente quando recordava o beijo, chegou em casa.
-E ai garoto, a encontrou hoje? Garoto? - Rayard não respondeu, e foi direto para o banheiro tomar um banho, esquecendo até de se despir, devido ao turbilhão de pensamentos no seu cérebro. - O que será que aconteceu? Espero que não tenha se magoado.
Apenas na metade do banho Oncer percebeu que ainda estava vestido e, rindo de si mesmo, ficou nu e entrou na água novamente, agora cantando alguma música irreconhecível na sua voz, pelo menos isso deixara Keiharu tranqüilo. Somente depois de meia hora o homem-fera, ainda muito contente e cantante, se juntou ao velho curandeiro na sala.
-Por Lin-wu, ou qualquer outro deus que você cultue, pare de cantar! Tenha dó dos meus velhos e frágeis ouvidos.
-Ah velhote, hoje é um dia especial, e nem suas brincadeiras vão acabar com meu bom humor!
-Lá vem você de novo com esse papo. O que aconteceu para você ficar assim então, recebeu uma medalha de “Nitamuraniano do ano”?
-Hahaha! Melhor que isso seu velho sem graça. Hoje um dos meus mais profundos desejos foi atendido, talvez graças ao seu deus lagartão. Se for, agradeça a ele por mim.
-“Deus lagartão”, espero que você saiba o que está dizendo meu rapaz, para que não se arrependa quando for castigado. - Mas nem este aviso foi suficiente para remover o largo sorriso presente no rosto do garoto.
Já era noite quando os dois se sentaram para jantar, e o local estava fracamente iluminado pelas tímidas chamas das velas nas pontas dos candelabros. Toda comida que tocava os lábios de Rayard o faziam lembrar o gosto e a satisfação que sentira àquela tarde. Parecia uma noite perfeita, mas não era.
Um pouco antes de acabar seu prato, algumas batidas fracas, porém constantes, na porta, o fez largar um resto de comida para ir atender o convidado. “Quem será que esta fazendo uma visita nesse horário” pensou consigo mesmo esquecendo por um momento que o dono da casa é o curandeiro da região, e que as pessoas não marcam hora para se machucarem. E não deu outra, do lado de fora estava uma pessoa de aparência espantosa, machucados cobriam todo o resto e os braços, grandes manchas vermelhas se faziam visíveis ao longo da pele e das vestes.
-Iwamori!? O que aconteceu com você!? Entre por favor, já vou chamar o velhote, sente-se aqui venha. - O desespero conseguiu varrer as boas lembranças por alguns minutos da cabeça de Oncer, que parecia não saber o que fazer, como se tivesse visto o pior de todos os seus pesadelos bem a sua frente e sem poder contar com o despertar para ajudá-lo.
-B.. boa noite Rayard-san. Desculpe o incômodo, mas eu precisa vir ver o senhor Keiharu, eu não sinto direito meus braços. - disse a garota com uma expressão que, na cabeça dela, transmitia calma, mas serviu apenas para preocupar ainda mais o pobre homem-lobo.
-Não faça mais esforço tudo bem. Você não tem que se desculpar de nada, pelo contrario, fez muito bem em ter vindo aqui o mais depressa possível. EI SEU VELHO GAGÁ VEM AQUI DEPRESSA, NÃO PERCEBEU QUE O SENHOR TEM UMA PACIENTE!
-Para de gritar no ouvido da moça seu garoto mal educado. Não se preocupe, eu trouxe aqui o material para fazermos os curativos. - Keiharu depositou a bacia com água no chão, ao lado das gazes e algumas ervas.
-Boa noite Keiharu-sama, desculpe incomoda-lo tão tarde.
-Não se preocupe com isso, estou acostumado já. Venha cá, deixe-me limpar essas feridas.
Por algum tempo o velho limpou os machucados e passou uma mistura feita de ervas nas contusões, aliviando a dor e acelerando a cicatrização. Os braços e o pescoço da mulher ficaram cobertos de curativos, mas sua beleza ainda era incomensurável aos olhos da fera, que ficara o tempo todo ao lado do ancião, ajudando-lhe sempre que preciso.
-Tem mais algum lugar ferido ou que esteja doendo?
-Sim... mas, mas eu tenho vergonha. - A face da oriental ficara muito vermelha, a ponto de a mudança ser perceptível até mesmo com a baixa iluminação provinda das velas.
-Não precisa ter vergonha de mim querida, já sou muito velho e não ligo para esse tipo de coisa. - mentiu o curandeiro. O estômago de Rayard se contorcera de ciúmes por um instante.
-Minhas pernas... minhas pernas doem. Mas não estão machucadas.
-Entendo. Então apenas uma massagem relaxante com um pouco deste óleo de ervas será o sufi...
-Então deixa que eu faço velhote. Ta na hora de gente idosa ir dormir. Vai, vai, me da licença, eu sempre fui melhor massageador que você. Vai dormir vai.
Mesmo que a contragosto, Keiharu não se opôs ao garoto, levantou-se calmamente e caminhou devagar até seu quarto, olhando com o canto do olho para a garota, na esperança de vê-la retirando o kimono para receber seu tratamento. Mas foi em vão, ainda demorou alguns minutos para que ela se despisse, mesmo estando sozinha com Rayard.
-Não se preocupe, eu realmente sou bom nisso. - gabou-se dando um sorriso tranqüilo para a paciente. - Mas eu pedi que o velho saísse porque eu gostaria de te fazer algumas perguntas. Quem fez isso com você Iwamori?
-M... meu pai. - respondeu a garota depois de alguns segundos, com a voz muito fraca, quase inaudível.
-Foi por minha causa não foi? Por causa do nosso beijo de hoje, não é?
-Não foi culpa sua Rayard-san, fui eu quem tomou a iniciativa, eu já estava ciente das conseqüências, e não me arrependo, de que outra forma eu estaria aqui agora, a sós contigo?
Naquele momento, todo o desespero e arrependimento se esvaíram dos pensamentos do rapaz, dando lugar a incerteza e ao desejo. Sua mente estava confusa, por um lado não sabia se continuava a massagem e não fazia nada que comprometesse a saúde de sua amanda, e por outro, seus instintos insistiam para que ele se desfizesse de suas roupas também, e que se juntasse àquela perfeita criatura, mais bela até mesmo que a lua cheia refletida na margem calma de um lago negro salpicado de pequenas estrelas. Em poucos segundos os instintos ganharam, e naquela madrugada, nem o sono nem o velho curandeiro ousaram incomodar os dois.
O licantropo só conseguiu dormir quando Azgher iluminava vagarosamente o horizonte, e acordou do melhor sono de sua vida poucas horas depois, com barulho de vários passos e gritaria, vindos da porta de entrada. Iwamori não estava mais ao seu lado.
' -Rayard Oncer, abra a porta, é a guarda de Nitamu-ra. Vamos, abram a porta.
Não entendendo o motivo de tanta balburdia, o rapaz levantou-se desengonçadamente enquanto se vestia e calçava o tora. Ainda sonolento e com os olhos semi-cerrados abriu a porta, e deu de cara com 4 homens, vestidos com armaduras samurais, com máscaras horrendas escondendo suas faces. Iwamori estava ao lado de um deles.
-Que que foi? Qual o motivo dessa gritaria toda? - perguntou desconfiado.
-Você esta preso, Rayard Oncer, por macular Iwamori Ookuchi, prometida em casamento ao senhor Ichihira Kamioo, filho do Alto Sacerdote, Ichihira Tozen.
-QUE? - o licantropo acabara de descobrir que ainda não havia sonhado seu pior pesadelo, e que o mesmo acabara de se materializar na sua frente. - Prometida?
-Venha conosco, e não ofereça resistência, assim não sairá ferido.
Mas o acusado já não ouvia a voz do oficial, sua mente estava sendo bombardeada de pensamentos culposos, misturados com um crescente ódio que apertava seu peito para dentro. “Prometida, e não me disse nada. Como eu fui ingênuo, desde o começo o plano era esse, me prejudicar. COMO EU FUI BURRO!”
-Eu não vou. - disse estufando o peito, fazendo parecer aos olhos dos guardas que duplicara seu tamanho, fazendo dois deles darem um passo para trás. - Vou abandonar seu precioso vilarejo agora, não tenho motivos mais para permanecer aqui. - disse com ar zombeteiro, pedindo desculpas mentalmente para Keiharu, pois agora não pretendia esperar naquele lugar para cumprir sua promessa.
-Quem foi que te deu o direito de escolher o que fazer? - Ergueu a voz o que aprecia ser o líder dos samurais, trazendo de volta a confiança aos seus subordinados. - Tu cometeste um crime em nossos domínios, se aproveitando a força da senhorita Iwamori. Então...
-A força? Quem disse isso? - perguntou, sem esconder sua raiva, nem suas presas.
-A própria Iwamori deu queixa, e mostrou os machucados que você, em sua loucura, os fez.
Aquelas palavras fizeram Rayard perder o chão, descrente. Olhou nos olhos da antiga amada, que por usa vez, mirava o chão, com a face tão vermelha quanto na noite passada. Oncer não sabia o que fazer novamente. Pensamentos divergentes invadiram mais uma vez sua cabeça. E mais uma vez seus instintos falaram mais alto.
Com apenas um salto, Rayard foi capaz de acertar o comandante da operação, derrubando-o no chão já sem a metade esquerda da face, que estava agora destroçada dentro da boca do licantropo. Com a mandíbula e o pescoço sujos de sangue, se levantou, olhando furioso, bufando e rosnando para os outros três soldados, e para a garota, que se encolhera atrás da armadura de um dos oficiais.
As espadas ressoaram em uníssono de suas bainhas, porém, devido ao fato de seu capitão jazer imóvel aos seus pés, ninguém ousava tomar a iniciativa de atacar a fera. No mesmo instante, Oncer disparou em corrida pela rua, não antes de arrancar, literalmente, o braço de outro samurai que estava na sua frente. Uma fração de segundo depois, os dois guardas que sobraram iniciaram a perseguição.
Não demorou muito, o homem-lobo chegara à pequena fonte, o ponto inicial do plano para sua decadência. Ali, escorados na borda do posso, estavam mais quatro guardas, inicialmente a paisana, mas, ao verem o sangue que escorria da boca da fera, desembainharam suas espadas e posicionaram-se para um combate. Logo em seu encalço, vinham os outros dois executores, seguidos pela bela oriental.
No instante seguinte, os guardas cercaram o acusado por todos os lados, impossibilitando uma futura tentativa de fuga. A presa olhava em volta freneticamente, analisando todas as ações possíveis, e fugir já não era mais algo que ele queria, seu instinto pedia por sangue, e não adiante discutir com o instinto.
-Não se mexa. Não queremos que mais ninguém se machu... - com um pulo rápido para trás, o oficial escapou de ter sua garganta degolada pelo forte golpe de licantropo, que não estava nem um pouco a fim de conversa.
Percebendo que palavras já não resolveriam mais, dois dos guardas avançaram, com a espada em riste, na direção da fera, que com movimentos grosseiros, fortes rápidos, se desviou do primeiro golpe, rasgando o braço do espadachim, e levou o segundo apenas de raspão, fazendo uma fina linha de sangue escorrer através dos pelos de suas costas.
A investida deu confiança aos outros samurais, que atacaram praticamente ao mesmo tempo, tão rápidos quanto a presa, que, com muita dificuldade, saiu do meio da saraivada de lâminas, levando consigo uma perna entre os dentes, e mais alguns cortes nas costas e outros nos braços.
O número de oficiais fora reduzido a cinco, estando dois com os braços levemente cortados, e um outro com sangue escorrendo de seu supercílio direito, enquanto Rayard tinha apenas alguns cortes superficiais, que pareciam não estar fazendo a menor diferença. Não mais tão confiantes os guardas atacaram mais uma vez, alternando agora o número de combatentes, tática usada para fazer com que o inimigo gaste mais energia, ficando cansado mais rápido, enquanto eles guardam um pouco de suas próprias reservas de fôlego.
A nova investida pareceu surtir efeito, após esquivar-se dos três primeiros cortes, levando mais um samurai a invalidez, os outros dois não puderam ser totalmente evitados, fazendo com que as lâminas perfurassem fundo a carne do licantropo, que sentiu as pernas falharem por um segundo, e a visão se tornar levemente turva. Mas sua fúria era tão grande que ainda assim conseguiu lançar-se em direção aos atacantes. Após varias mordidas e fortes ataques desferidos com suas garras, que assobiavam ao vento devido a grande velocidade, só restara mais um samurai inteiro, porém, Rayard perdera a mão esquerda e havia vários cortes profundos agora, espalhados por todo o corpo, e a falta de sangue começara a surtir efeito.
Muito tonto devido aos ferimentos, Oncer ainda tentou uma última vez ferir seu último oponente, mas caíra de joelhos antes de dar o segundo passo, mas o guarda não se moveu. Não porque não quis, ele já mal se agüentava em pé vestindo sua armadura, que estava com o triplo do peso normal, e também despencou no chão.
Ainda ajoelhado, Rayard Oncer viu que Iwamori vinha correndo em sua direção, e seu ódio deu resquícios de que iria voltar, mas nem isso era mais possível agora, só lhe restou então, observar.
-Desculpe-me, tinha de ser assim.
-Iwamori – as palavras saiam em meio ao sangue em sua garganta. Juntou suas últimas forças para poder fazer a pergunta que latejava em sua cabeça desde que começou a morar com Keiharu, - por que eu? Com tanta gente de fora que passa por aqui, por que o ressentimento de vocês se concentrou em mim?
sexta-feira, 11 de abril de 2008
Roubo Impossível Parte 2 (que infelizmente não é a última)
Porém, não estou tendo o tempo que gostaria de ter para me dedicar a ele, logo, decidi postar o pouco que já escrevi desde a última vez, para que isso aqui não fique abandonado.
O conto está ficando bem do jeito que eu o estava imaginando, o que é ótimo, pois não estou mais me confundindo na hora de escrever.
Espero que gostem dessa parte. Vou publicar o fim em breve, ou pelo menos assim espero.
Abraços.
Roubo Impossível - Parte 2
O cheiro de café tomava conta da sala. Dois copos de plástico, que deviam estar cheios do líquido fumegante e negro como a noite, decoravam a mesa ao lado do vídeo cassete.
-Aceita um? – era Artur, apontando para os recipientes.
-Não gosto de café. Mas aceito um refrigerante. – esta última frase foi dita com tom brincalhão.
-Ligue as coisas aí então, e pode começar a assistir, que eu vou buscar para você. – o policial não estava brincando, e isso surpreendeu o mágico. – Qual você quer?
-Hum, pode ser qualquer um de uva. – incerteza e desconfiança. Mas o policial balançou a cabeça afirmativamente e saiu da sala, levando a mão no bolso de trás da calça, onde ficava a carteira.
Alguns minutos depois a porta abriu, revelando que Artur estava realmente falando sério, pois segurava uma latinha roxa em uma das mãos, e um copo branco, daqueles que parecem de isopor, bem grande, que se pega nas máquinas de café, na outra.
-É bem melhor vir pra cá quando não se é um suspeito. E pra quem é o outro café?– brincou o mágico. Um estalo irrompeu da lata, quando o lacre foi aberto.
-Não tenha dúvidas de que é melhor. É para mim mesmo. - disse se referindo ao copo. - Sempre morro de sede quando assisto TV– respondeu o policial, também em tom brincalhão. Deu um gole no líquido fumegante, sem nem mesmo assoprar. Sua língua depois de anos sendo maltratada já se acostumara ao café quente. – Não ligou o vídeo por quê? Bom, não importa. Posso ligá-lo agora?
-Claro, claro. Quanto mais cedo terminarmos de assistir, mais cedo posso voltar para casa. – Tony lembrou-se de Carla e seu vestido preto com amarelo, e na hora se arrependeu de não ter pegado nem ao menos o número do celular da moça.
A tela negra da TV brilhou com a estática ao ser ligada e se coloriu de azul, enquanto o aparelho de vídeo rosnava. No segundo seguinte surgiu o interior do banco que havia sido roubado. No canto inferior esquerdo da tela estava marcada a data e a hora que aquelas cenas foram gravadas. Três da manhã, há dois dias atrás. Um guarda estava sentado em uma cadeira de madeira de frente para a porta do cofre, fechada. Um pequeno vulto voou em direção ao guarda, que caiu no chão, imóvel. No instante seguinte outro homem aparece na gravação, vestindo um terno negro e uma cartola, de mesma cor, que impedia que seu rosto fosse filmado.
O mágico verificou a pulsação do guarda, agachando-se e colocando dois dedos no pescoço da vítima. Levantou-se alguns segundos depois. Levou a mão direita até o bolso e retirou o que de inicio parecia um lenço. Mas o pano não parava de sair, até ficar imenso, do tamanho de um lençol. Tony deu um pequeno sorriso nessa hora. Artur olhava fixamente para a tela, sem nem ao menos piscar. Os dois deram um gole em suas respectivas bebidas.
O ladrão ajeitou o lençol, esticando-o e prendendo-o na parte de cima do cofre. O pano escondeu totalmente a porta. O que aconteceu em seguida fez Tony dar um salto da cadeira e bater palmas. O mágico levantara o lenço gigante, ficando em baixo do mesmo. No segundo seguinte o mágico largou-o, e o pano desceu vagarosamente, até ficar totalmente esticado na porta. O rapaz havia sumido.
-Viu? Era disso que eu estava falando. – era Artur, que já estava na metade do segundo copo. – Como esse maldito faz isso?
-Foi uma mágica maravilhosa. – Tony estava encantado. Seu refrigerante estava praticamente inteiro ainda. O mágico se deu conta disso, e levou a latinha até a boca, dando um gole bem demorado. – Pena que ele está usando a mágica para fins ilegais, porque ele é bom.
-Bom? Nem me fale. Não conseguimos encontrar pista nenhuma no local. A única coisa que ele deixou para trás foi a carta que desmaiou o policial.
-Carta?
-Exato. Aquele vulto preto no começo do vídeo é uma carta de baralho, que acertou o pescoço do policial e que o fez desmaiar.
-E isso existe é? Eu achava que desmaiar os outros apertando no pescoço era lenda de filmes policiais americanos.
-Eu também. A gente não aprende essas coisas aqui não. Ainda mais com uma carta.
-É, concordo. Eu já vi gente fazer muita coisa esquisita com baralho, - disse o mágico esboçando um sorrisinho com o canto da boca. – mas isso ai é coisa de Rambo.
-Uhum. – se limitou a dizer o policial, pois a gravação voltou a ser mais interessante que a conversa.
segunda-feira, 24 de março de 2008
Roubo Impossível
Minha faculdade ta meio puxada agora no terceiro ano. Mas vou postar aqui a primeira parte de um conto que comecei a escrever semana passada. Estou pensando em fazer várias histórias usando os personagens que criei para esta narração. Tipo Sherlock Holmes, hehehe.
Espero que gostem desta primeira parte. Semana que vem, ou antes, eu posto o resto.
Roubo Impossível
A apresentação mal começara e os aplausos já inundavam o teatro.
Tony Trickman usara uma de suas melhores mágicas para abrir o espetáculo. Pegara um pequeno pano de prato, todo branco, dobrando-o várias vezes até caber em sua mão fechada. Depois disso bastou dizer algumas palavras mágicas e jogar o pedaço de pano para cima. Todos na platéia gritaram de admiração quando perceberam que o pedaço de tecido na verdade havia se transformado em uma pomba, que bateu as asas calmamente, voando para a mão do mágico.
Ainda em meio às palmas, Tony guardou o pombo em sua maleta, onde ficavam todos seus objetos mágicos. Aproveitou então para pegar um baralho. Mágicas de cartas não são muito boas para se fazer para um público muito grande, pois são pequenas e difíceis de serem vistas à distância. Mas aquela apresentação estava sendo filmada e transmitida no telão do teatro, logo, todos conseguiriam acompanhar os truques do rapaz.
-Como vocês podem ver, eu tenho aqui comigo um baralho normal, de cinqüenta e duas cartas. – Tony abriu um leque perfeito, mostrando os números e os naipes para a câmera. – Eu vou precisar de um voluntário da platéia para vir aqui em cima me ajudar.
Várias pessoas levantaram as mãos, ou gritavam, pedindo para serem escolhidas. A maioria delas eram crianças, mas Tony também usava a mágica como um artifício para se aproximar das mulheres. Por isso o jovem mágico chamou a garota mais linda que ele conseguiu enxergar nas primeiras filas. Cintura fina, delineada por um vestido longo, peça única, preto com detalhes em amarelo, parecendo uma placa de segurança, “Cuidado! Curvas perigosas!”. Cabelo castanho escuro, tão liso que parecia ter saído direto das propagandas de shampoo. Seios não tão grandes, mas o sutiã os apertava um contra o outro, dando a impressão de serem mais firmes e fartos do que realmente são, e isso sempre chama atenção. Quem iria chamar um guri catarrento para subir no palco quando se tem uma beldade dessa disponível.
Tony não é um rapaz feio. Tem quase um metro e noventa de altura, não é gordo nem muito magro. Cabelos bem curtos, espetados para cima e brilhantes, graças ao gel. Vestia calças e um terno preto por cima de uma camisa cor vinho.
-Qual o seu nome, minha querida? – perguntou o mágico, olhando embasbacado para os olhos verdes da garota.
-Carla. Carla Anderly.
-É um prazer tê-la aqui comigo, obrigado por aceitar subir no palco. Agora, por favor, escolha uma carta. Qualquer carta que você quiser. Não precisa me mostrar. – Tony fechou bem os olhos enquanto a moça pegou uma carta no meio do leque. Dama de copas. – Decore sua carta. Depois pode colocá-la de volta junto com as outras.
Carla obedeceu. Depositou a carta em um lugar diferente de onde ela a tinha pegado, tentando confundir o rapaz. Mas isso era impossível. Assim que a carta escolhida já estava de novo em suas mãos, Tony começou a embaralhá-las.
-Concorda comigo que você poderia ter escolhido qualquer carta, e que este baralho é normal? – era o mágico, ainda embaralhando, mas olhando nos olhos da garota.
-Sim. – Carla estava meio apreensiva. E muito excitada, com a mágica, claro.
-Mas você me devolveu a carta um pouco mais pesada. – Tony fingia estar meio desconfiado. – Você colocou alguma coisa na minha carta?
-Não, não coloquei nada. – a moça agora estava também um pouco assustada.
-Vamos dar uma olhadinha aqui. – Tony começou a passar carta por carta, de uma mão para outra. Todas com a face virada para baixo, assim ninguém poderia ver os números ou as figuras. De repente, uma das cartas tinha um desenho estampado no seu dorso. Era uma embalagem de bom-bom. – O que é isso aqui? Um chocolate? Você quem colocou ele ai? – o mágico ainda fingia estar confuso.
-Não fui eu não. Minha carta não tinha nada estampada atrás dela. – afirmou a garota, mais calma. Ela estava achando que tinha acontecido algo mais grave, mas a imagem do chocolate a fez perceber que aquilo era uma brincadeira.
-Vamos ver se esta é sua carta então? – quando a garota confirmou com a cabeça, Tony virou a face da carta para cima. Dama de copas.
-Meu Deus do céu. É essa daí mesmo. – Carla abriu um largo sorriso, maravilhada. O mágico também sorria, olhando encantado para moça. “Como é linda” pensou o rapaz, mas abandonou o devaneio por enquanto, se concentrando na mágica de novo.
-Já que este chocolate não é seu, o aceite como um presentinho meu então. – Tony achou graça da confusão na expressão da garota. Parecia que um “desenho” não era um presente tão legal assim. – Estenda suas mãos aqui, fazendo favor. Isso assim, como se estivesse bebendo água de um rio.
Quando a garota pôs as palmas da mão, em forma de concha, em baixo da carta que Tony estava segurando, aquela que ela havia escolhido, com o desenho do bom-bom virado para baixo, o mágico deu uma leve entortadinha na dama de copas, e um chocolate de verdade caiu em suas mãos. Tony virou a carta para cima, e o desenho tinha desaparecido.
Choveram aplausos novamente. Os olhos verdes de Carla estavam até brilhando de admiração. Tony agradeceu a participação da moça, deu-lhe um beijo e disse que ela podia voltar para sua poltrona. E o show seguiu o curso normal depois disso. Vários outros truques maiores foram feitos, não somente com baralho. Uma hora e meia se passou, tão rápido quanto um relâmpago. É impressionante como o tempo gosta de se apressar quando estamos nos divertindo. E então, o show acabou.
Tony Trickman já tinha recolhido suas coisas, guardando-as em sua mala, quando pediu para um dos funcionários do teatro que a levasse até seu camarim. Ele ia convidar Carla para comer alguma coisa com ele agora. Estava descendo do palco quando percebeu a presença de um convidado importante, que ele não tinha notado durante o show. E este espectador especial estava vindo em sua direção.
-Olá, senhor Barbosa. Adorei sua apresentação.
-Por favor, senhor policial, não me chame pelo sobrenome quando eu estou me apresentando. – respondeu Tony, sussurrando. Seu verdadeiro nome era Antônio Barbosa, um péssimo nome artístico por sinal.
-Mas eu pensei que o show já tivesse acabado. – respondeu, cínico, o policial.
-Sim, sim. Já acabou. Mas o público pode ouvir. Mas que seja. Acredito que você não veio aqui apenas para apreciar um pouco de arte, certo?
-Exatamente. Adoro vocês mágicos. Sempre sabem de tudo. – sarcástico.
-Muito engraçado. Mas se você veio aqui me acusar de roubo a banco novamente, pode voltar para sua casa! Eu já disse que sou inocente. Eu...
-Acalme-se garoto. Pode ficar calmo. Será que podemos conversar em algum lugar mais privado? O público ainda está por aqui, e não seria conveniente que eles ouvissem.
Tony concordou, contrariado. “Maldito. Estragou uma noite perfeita.” Pensou o mágico, enquanto ia para seu camarim, com o policial em seus calcanhares.
O oficial se chamava Artur Harderlaw. Ele é o encarregado das investigações de um assalto ao banco. Mas o roubo não fora feito da maneira convencional. O ladrão entrou no banco atravessando o cofre, literalmente. Ele não usara programas para destravar o cofre, nem bombas para forçar uma passagem. Simplesmente atravessou a porta, como um fantasma. As câmeras de segurança capturaram algumas imagens, mas nada muito claro, pois o bandido usava uma grande cartola negra, e um terno, da mesma cor. Foi graças a este vestuário que a polícia começou a investigar todos os mágicos da região. Tony foi um deles, mas foi provada sua inocência, graças a um álibi de uma mulher que havia saído com o rapaz na noite do assalto.
Finalmente chegaram ao camarim. A maleta de Tony já estava lá.
-O que foi dessa vez, Artur? – o mágico estava impaciente, ainda tinha esperanças de encontrar Carla na frente do teatro.
-Aconteceu de novo Antônio...
-Tony! –interrompeu.
-Aconteceu de novo, Tony. Nosso magiquinho desconhecido roubou outra agência ontem à noite. Calma! Não estou te acusando. Muito pelo contrário. Vim pedir sua ajuda.
A incredulidade nas feições do mágico fez o policial dar um sorriso. Apesar de algumas desavenças no passado, Artur achava Tony um ótimo rapaz, muito simpático, educado, inteligente, ou seja, o par perfeito para sua filha, se não fosse pelo simples fato dele ser um safado para com as mulheres. Harderlaw não sabia o porquê de ele estar pensando nessas coisas, mas esse pensamento desapareceu da mente do oficial tão depressa quanto surgiu.
-Nós precisamos saber como aquele ladrão faz aquilo, para vermos o que podemos fazer para impedir que os outros bancos sejam violados.
-Saber como ele faz o que?
-Atravessa o cofre.
-Desculpe. Não posso revelar os segredos das mágicas. É contra os princípios dos mágicos. – Tony falava sério.
-Ótimo. Ótimo. Você é igual a todos os outros. Se eu não soubesse o quanto essa história de “nunca revele seus segredos” é importante, eu chegaria a pensar que vocês todos fazem parte da mesma quadrilha.
-“Você é igual a todos os outros”? Eu não sou a primeira pessoa que você pede ajuda?
-Não. – Artur pareceu meio envergonhado. Será que deveria ter vindo falar com Tony primeiro? Ele, de todos os outros, é com certeza o melhor. A consciência do policial quase pesou.
-Tudo bem. Isso não é importante. – Tony realmente parecia não ter ligado pelo fato de não ter sido a primeira opção. – Mas o que eu te disse é verdade, não posso, e não vou, revelar o segredo.
-Entendo. Mas então nos ajude com as investigações. Vocês mágicos se conhecem melhor do que ninguém. Qualquer pista que puder nos fornecer de quem seja o ladrão, será bem vinda.
-Bom, se for só isso, eu posso ajudar. Mas eu precisaria ter acesso às filmagens feitas pelo sistema de segurança dos bancos. – o mágico sorria amistosamente, meio que se desculpando por ter sido grosseiro com o policial quando o vira.
-Se puder me acompanhar até a delegacia. Já está tudo pronto lá, apenas nos esperando.
-Só espere então eu tirar este terno, que está me fazendo suar igual um porco velho no deserto.
Quinze minutos depois Tony seguia de perto,
Quase não havia ninguém lá dentro. Apenas uma secretária solitária, sentada preguiçosamente ao lado do telefone, seu companheiro noturno. Quando passaram pela mulher abandonada, nem o policial nem o mágico disseram nada, apenas acenaram um tímido cumprimento com a cabeça. Em seguida estavam nos corredores internos do prédio.
Tony e Artur trocaram algumas palavras enquanto caminhavam. Assuntos sem muita importância. Então chegaram à Sala de Vídeo. O policial abriu a porta e a segurou, liberando espaço para Tony passar.
-Pode se sentar ali mesmo. – era Artur, indicando uma cadeira almofada que estava na frente da Tv.
CONTINUA...sexta-feira, 14 de março de 2008
Como é difícil pensar num título
MALDITO TÍTULO!
Eita negocinho complicado esse ai! E olha que eu já tive aulas de "como escrever títulos" aqui no meu curso de jornalismo. Tudo bem que a aula servia para escrever manchetes, mas a idéia é a mesma. Reunir o conteúdo e resumi-lo em duas ou três palavras.
Meu Deus como isso é difícil. E eu estou mais uma vez nesta peleja.
Quase acabando o primeiro conto que vou publicar aqui, e ainda não sei o título.
Existem duas formas de se bolar um título.
- Já saber qual vai ser, antes mesmo de começar a escrever. Não é muito recomendado, porque depois que se começa a escrever, suas idéias (as minhas pelo menos) mudam bastante, procurando deixar o texto cada vez melhor. Logo, seu primeiro título pode ficar deslocado em relação ao conteúdo.
- Terminarde escrever o conto, lê-lo milhões de vezes, e a partir daí, elaborar o título. É a melhor maneira que existe. O que não significa que seja fácil. Porque muitas vezes não é! Pode acreditar.
Abraços
Criando vergonha na cara
Este blog foi criado com intuito de me ajudar a crescer na profissão que eu escolhi para mim. Escritor.
Há um ano e dois mêses eu comecei a escrever um romance, que infelizmente não alcança um nível aceitável para ser publicado.
Falando assim parece que eu escolhi a profissão errada. Mas os elogios que eu venho recebendo, junto com as críticas, me motivam a apostar neste ramo mesmo.
E é por isso que eu estou aqui. Aqui vou postar meus contos, almejando o aprimoramento da minha escrita, para no futuro ver meus livros publicados nas estantes das livrarias do Brasil inteiro.
Agradeço, desde já, todos aqueles que derem uma passada por aqui, mandando suas críticas, elogios e sugestões, ou só dando uma lida mesmo.
Abraços.
Daniel Lunas Leite.